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Londres, dia 3: meditação em euston road


Eu conheço estas ruas mas elas não me conhecem. O homem que andou por aqui anos antes tinha um pacto com o sonho; uma ligação, irreal, romântica, adultamente infantil. Esta outra pessoa de hoje não é a anterior. Nasceu das feridas dessa outra.
Foi só em viagem, numa outra, que compreendi que sou permanentemente o meu nascimento. Que o que faço aqui é nascer, cada vez mais em luz. Mas como o Universo, só se nasce das próprias feridas.

Chove, chove sempre entre Marchmont Street e Euston Road. Pergunto a este chão se se lembra dos meus passos. Responde-me com milhares de seres, com vidas que não se cumpriram e outras que sonharam outros espaços, outros lugares, outras vidas. Era «um rumor de outras vidas, uma esperança de vitrais», como dizia Natércia. Esta espécie de consciência que tenho parece então alargar-se, como se uma outra pessoa que fez aquele caminho, e eu de ontem e eu de hoje nos ligássemos numa comunicação mais larga. Quem foi essa outra pessoa que me liga a mim de antes e a mim de hoje? «Time present and time past are both contained in time future», diz T. S. Eliot que oiço no Ipod enquanto faço vinte caminhos num só.

Limitado como sou, homem como sou, só sei dar um nome a este terceiro ser: personagem. Agora tu vens para dentro da minha cabeça, podes usar o meu corpo, podes crescer comigo: só te posso prometer que te crio uma casa para viveres, mas tem de ser a casa que tu quiseres.
Sento-me para um expresso; e leio Hemingway em Paris, mais ou menos pela minha idade, quando diz que as personagens e quem as escreve têm laços no real.

Chove em Euston Road e eu penso que nós é que somos as estradas.

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