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Londres, dia 2: Slyde Park

Na verdade, jantar do dia 1.
Ele é brasileiro, fala um inglês sambado, malandro. Quando o Paulo e eu nos sentámos na mesa ao lado para jantar, o brasileiro estendia o seu inglês sobre as suas fazendas, de como as mulheres brasileiras se tatuam em todo o lado depois dos cinquenta, como tudo lá é bom e um universo de possibilidades. Ela, que o acompanhava, era bonita. O inglês perfeito, a atitude receptiva, mas apesar da pele branca, o cabelo era uma raridade aqui, um negro escorrido. Sobretudo um corpo perfeito e um sorriso inteligente. Embasbacada pelo cabelo malandro dele, o brasileiro típico do "Breakfast at Tiffany's", moreno tisnado-menino rico - a forma ideal de provar da melhor confecção do calor brasileiro. Mas ele falava sem parar da vida maravilhosa lá, de como fazia tudo e mais alguma coisa, do carro raro do pai que ele passeava pelos matos a horas estranhas, tão corajoso como um bandeirante. Meia hora nisto. As mãos dela aproximavam-se perigosamente das mãos dele, e eu apostava que de certeza a velha canção do bandido, tão lusitanamente espalhada pelo mundo, ia ganhar.
Depois veio o desespero dele. Há três formas de estragar um primeiro encontro amoroso: o primeiro é ir depressa demais; o segundo é ir devagar demais; o terceiro, e dramático, é falar na mãe. Pois ele esteve dez minutos nisso. O Paulo e eu queríamos jantar, na verdade, mas era de tal forma simbólica, mitomaníaca, bíblica aquela conversa, que acabámos por jantar mais aquilo do que a Chicken Kiev.
Com a conversa da mãe - e de como eles falavam por sms todos os dias - veio ainda uma coisa pior, se possível: de como os amigos ingleses lhe falavam constantemente de como as mulheres se apaixonavam por ele; e ele, claro, os trópicos sobem tão depressa à cabeça, não dava por isso. Eu esperava a resposta dela como pelos números da lotaria: isso ditaria a sorte da noite. Lá fora chovia, ele desfiava paixões de mulheres exóticas, russas brasileiras, turcas inglesas, suecas gregas, e ela impassível, o meio sorriso inglês de quem toma chá entre o caos. O cappuccino dela já tinha morrido há um tempo, mas ela continuava a tocar de vez em quando na chávena como para recordar-se (ou recordar-lhe) o motivo real porque se tinham encontrado ali.
A conversa estava a mudar de centro, ela pressentiu que a tropa das seduções dele caíam uma a uma sem sequer tomar a barbacã. Mas deixou mais uma hipótese antes de um contra-ataque. Então, para meu espanto absoluto, ele falou hipotético. Era certo: ele iria ser linchado e jantado como um banquete depois dos despojos. «Se uma pessoa conhece outra e gosta dela, não será que poderia haver qualquer coisa». Silêncios. E eis então que ela toma as rédeas da conversa. Suavemente pega no hipotético e desmancha-o, como quem ensinasse etiqueta com subtilezas puras. «Não sei como é na tua língua, mas na minha há o verbo fancy. E isso não dá para um relacionamento.» Era a troca de papéis: afinal tudo estava trocado, ela é que queria provar, ele é que estava apaixonado. Ele sentiu-se acossado, e eu secretamente comecei a torcer por ele. «Mas gostando de uma pessoa, eu podia levá-la comigo para o Brasil.»
«Lamento, mas isso é impossível».
A conversa estava no fim, o meu jantar também, precisava do meu expresso decaf debaixo de chuva com um cigarro. Deixei-os a arrumar a tralha, mas ele estava cada vez mais calado e ela cada vez mais triunfante. Aquele jantar acabaria em água: se vertical, se horizontal, ainda se estava para ver. Mas foi um jogo de escorregadelas cortesãs. O século XVIII nunca morre.

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