
De volta a Londres, sete anos depois.
Nunca gostei da sinfonia de Haydn, a última, a 104, que se chama precisamente "Londres": achava o início pomposo, mas sem o barroco triunfante de Haendel uns anos antes. Desta vez - porque depois dos 30 os regressos aprofundam-se no corpo - compreendi-a. Compreendi o movimento da música no seu início, e o tema suave e narrativo que vinha depois: porque compreendi a maneira como o rio abre ruas entre o sono das cores.
Regressar a uma cidade que não se amou - porque nela o amor por outro ser, se teve e se perdeu -, é um exercício onde as vísceras parecem tomar o lugar dos olhos. Mas nada parecia estar no seu lugar. Já o tinha vivido, e agora bebi-o com uma certeza fria, suavemente mental: vivemos as cidades com o coração dos olhos; ao regressar, o que está como centro da vida nesse momento, é isso que é o mapa da cidade, a forma como somos guiados pelas ruas, pelas cores e pela substância das coisas. Uma cidade é vivida pelo hoje do coração. Oxford Street, a HMV onde me perco nos discos, o rio a ser a maior arte da Tate Modern, ou a sensação de que a vida é o labirinto de possibilidades do Metro de Londres - tudo era diferente.
Esta é uma cidade maravilhosamente fechada, porque tem o mundo todo dentro; como o tempo aqui se sobrepõe numa arquitectura sucessiva, feita de um novo antigo, com o coração de antes e um corpo novo.
Agora percebo porque Haendel quis morrer aqui, Haydn foi aqui compreendido, Mozart sonhava vir para cá, e esta é a capital mais capital do mundo: a cabeça de uma ilha com um rio pequeno e serpente dentro.
Regressar a uma cidade que não se amou - porque nela o amor por outro ser, se teve e se perdeu -, é um exercício onde as vísceras parecem tomar o lugar dos olhos. Mas nada parecia estar no seu lugar. Já o tinha vivido, e agora bebi-o com uma certeza fria, suavemente mental: vivemos as cidades com o coração dos olhos; ao regressar, o que está como centro da vida nesse momento, é isso que é o mapa da cidade, a forma como somos guiados pelas ruas, pelas cores e pela substância das coisas. Uma cidade é vivida pelo hoje do coração. Oxford Street, a HMV onde me perco nos discos, o rio a ser a maior arte da Tate Modern, ou a sensação de que a vida é o labirinto de possibilidades do Metro de Londres - tudo era diferente.
Esta é uma cidade maravilhosamente fechada, porque tem o mundo todo dentro; como o tempo aqui se sobrepõe numa arquitectura sucessiva, feita de um novo antigo, com o coração de antes e um corpo novo.
Agora percebo porque Haendel quis morrer aqui, Haydn foi aqui compreendido, Mozart sonhava vir para cá, e esta é a capital mais capital do mundo: a cabeça de uma ilha com um rio pequeno e serpente dentro.
2 comentários:
Ai que sortudo! Essa é a minha cidade!
Vai a Camden, desfruta tudo e depois passeia-te pelo Regent Canal.
Aproveita ao máximo!!
p.s. vou para aí na semana do Natal :)
E eu aí moro :)
Pena estar de férias em Lisboa senão íamos tomar um café!
Abraço!
Miguel
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