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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2010

Londres, dia 2: Slyde Park

Na verdade, jantar do dia 1.
Ele é brasileiro, fala um inglês sambado, malandro. Quando o Paulo e eu nos sentámos na mesa ao lado para jantar, o brasileiro estendia o seu inglês sobre as suas fazendas, de como as mulheres brasileiras se tatuam em todo o lado depois dos cinquenta, como tudo lá é bom e um universo de possibilidades. Ela, que o acompanhava, era bonita. O inglês perfeito, a atitude receptiva, mas apesar da pele branca, o cabelo era uma raridade aqui, um negro escorrido. Sobretudo um corpo perfeito e um sorriso inteligente. Embasbacada pelo cabelo malandro dele, o brasileiro típico do "Breakfast at Tiffany's", moreno tisnado-menino rico - a forma ideal de provar da melhor confecção do calor brasileiro. Mas ele falava sem parar da vida maravilhosa lá, de como fazia tudo e mais alguma coisa, do carro raro do pai que ele passeava pelos matos a horas estranhas, tão corajoso como um bandeirante. Meia hora nisto. As mãos dela aproximavam-se perigosamente das mãos d…

Londres, dia 1: ver através de uma sinfonia

De volta a Londres, sete anos depois.
Nunca gostei da sinfonia de Haydn, a última, a 104, que se chama precisamente "Londres": achava o início pomposo, mas sem o barroco triunfante de Haendel uns anos antes. Desta vez - porque depois dos 30 os regressos aprofundam-se no corpo - compreendi-a. Compreendi o movimento da música no seu início, e o tema suave e narrativo que vinha depois: porque compreendi a maneira como o rio abre ruas entre o sono das cores.

Regressar a uma cidade que não se amou - porque nela o amor por outro ser, se teve e se perdeu -, é um exercício onde as vísceras parecem tomar o lugar dos olhos. Mas nada parecia estar no seu lugar. Já o tinha vivido, e agora bebi-o com uma certeza fria, suavemente mental: vivemos as cidades com o coração dos olhos; ao regressar, o que está como centro da vida nesse momento, é isso que é o mapa da cidade, a forma como somos guiados pelas ruas, pelas cores e pela substância das coisas. Uma cidade é vivida pelo hoje do coração.…