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Duetos Palavrosos, I

J. S. Bach, Concertos Brandenburgueses


O Dário Sopleen e eu gostamos de música, mas segundo alguns amigos comuns e leitores, nos quais me conto, ele é menos chato a escrever do que eu. Então combinámos falar de música, eu como de costume (talvez um poco piu presto), ele à sua maneira.
Concordámos os dois que falaríamos dos Concertos Brandeburgueses de Bach.


Comecei a ouvir música nos Concertos para Violino de Bach. Mas o primeiro CD que o meu pai me ofereceu foram os Concertos Brandenburgueses Números 1 a 3 (são 6 no total), da velhinha colecção "Papillon" da RCA, com Franz Bruggen na flauta, Gustav Leonhardt na direcção. A sensação de um mundo novo era demasiada: a minha cabeça explodia com tantos sons: eu queria parar o CD sempre, ouvir cada pormenor, calar os outros instrumentos para ouvir o que uma flauta voava, o cravo subia, um violoncelo mordia. Depois passaram anos, e passei-os mais em Beethoven e Brahms do que outra coisa qualquer. Paguei as contas de ser chato aos 20 e, vá lá, no dealbar dos 30, e agora oiço tudo com menos sentido florbélico-espânquico.


Durante anos, o 1º Concerto foi o meu favorito. Era um mundo novo de altura interior, de grandeza de trompas, de orquestrações longas e cruzadas. Depois veio o 3º, com a sua rapidez sustentada, com a velocidade das emoções. As flautas com que se iniciam o 4º chegaram com outras ressonâncias quando a minha irmã mais nova aprendia flauta transversal, e eu ouvia-a a ensaiar pensando que um dia tocaria isso. Mas no 5º Concerto, o solo de cravo parecia fugir do tempo em que fora inventado, parecia ser um daqueles eventos que vêm do tempo sobreposto: parecia ser o percursor do Jazz e do Rock, um solo de guitarra acústica cósmica.


Das dezenas de brilhantes versões, e tendo em conta que hoje em dia qualquer versão que não seja de instrumentos originais parece cair mal, seguem algumas que me parecem imbatíveis e verdadeiras oficinas de audição.
- Musica Antiqua Köln, Reinhard Goebel (Archiv): rapidez, virtuosismo, sons cheios e vibrantes. Não passar por aqui é não conhecer a grande versão moderna dos Concertos Brandenburgueses.
- Il Giardino Armonico, Giovanni Antonini (Teldec): discutida, discutível, discutidora. Os italianos frenéticos revisitam e reinventam. Há concertos onde corre melhor, outros onde poderá parecer que se força uma nota. Depois de ouvir a versão anterior, esta trará paisagens excessivas, como numa natureza morta que subitamente ganha vida.
- Orquestra compósita, Fritz Reiner (1946): só se encontra na internet actualmente, embora a Naxos tenha reeditado uma selecção. São instrumentos modernos, mas percebemos que Reiner já tinha percebido que a interpretação de Bach implicava outras seleccções: um pequeno grupo de câmara, a velocidade, o pensamento global. São jóias perfeitas.
- Academy of St Martin in the Fields, Sir Neville Marriner (Philips): procurar esta versão, e não a da EMI, posterior e menos intensa. É uma versão pré-romântica, cheia de sombras inesperadas, de prolongamentos a jogos interiores densos. O som é quente. Qualquer coisa de imaterial e eterno se demora aqui. O cravo de Tristan Hart é um dos segredos.
- A versão perfeita de Yehudi Menuhin com a Bath Festival Orchestra, anos 50, som fabuloso de presença, e um baile de detalhes longos e harmoniosos.
- E apenas para aqueles que querem correr riscos: há uma gravação de 2 concertos (o 3º e o 5º) dirigidos por Furtwängler nos anos 50 (EMI). O som é mau, e as cordas atiradas para tempos longos, prolongados, alquímicos. Os bach-adolescentes dos instrumentos originais odeiam isto como uma retrouvaille de péssimo gosto. Eu, por mim, adormeço aqui quando o mundo cai.

Comentários

Ai no que foste pegar! Também as minhas primeiras audições gravadas em cassete para andarem sempre comigo (sim, sou jurássica, e depois?)... Quero ver essa do Neville Merriner com a Academy.
Bravo disse…
As minhas versões favoritas, além das já citadas: da Orchestra of the Age of Enlightment; da Akademie fur Alte Musik Berlin; Ton Koopman e The Amsterdam Baroque Orchestra; a delicadeza da mão de Masaaki Suzuki e o Bach Collegium Japan; o incontornável Franzjosef Maier e o Collegium Aureum, pai de todos os outros; Trevor Pinnock e o European Brandenburg Ensemble, mais que o do English Concert; Karl Richter e a Munchener Bach Orchestra, com instrumentos modernos, mas muito inspirado. Não gostei tanto do Karl Munchinger e do Karajan, o primeiro arrastado, o segundo, pesado. E como curiosidade, a versão de Max Reger para piano duo, com Sontraud Speidel e Evelinde Trenkner, muito agradável.

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