Avançar para o conteúdo principal

A Crise, I

E aí está: maremoto, fantasma, leão, bárbara: à porta. Ruge e vibra, como um medo concretizado, mil rostos contra todas as formas das ilusões.
O que nos custará a sua chegada? Alguns dizem: o estado criará bancos próprios, é um regresso à economia estatizada, um neo-soft-comunismo de salvações nacionais. Outros, o fim do euro. Outros, o regresso da troca directa que a Europa não conhece há muitos mil anos. Outros, só, o fim de cem anos de ilusões de um desenvolvimento suspenso em dinheiro que não existe, dinheiro estruturado em valores atmosféricos, desde que perdemos a ligação ao dinheiro real, desde que o valor do dinheiro deixou de estar indexado ao ouro (lembram-se decerto da inscrição nas notas de escudos "X escudos Ouro"?).
Maremoto, fantasma, leão, bárbara: cada tempo precisa dos seus fantasmas. Não apenas cada tempo: cada decadência. Para alguns Bizâncio foi apenas isso, um exemplo de uma decadência resistente durante mil anos: rodeada de fantasmas, maremotos, bárbaros por todos os lados (os leões fugiram antes, foram roubados pelos Venezianos).
Penso também que cada três/ quatro gerações, uma nasce com tudo, hiperprotegida, e aprende o nada para gerar tudo. Penso que os meus sobrinhos (6-10 anos) aprenderão o nada. Cresceram com tudo e foram vendo o Natal minguando, as conversas sobre a crise crescerem: é a sombra dela que vivem e crescem os seus projectos, já.
O que seremos dentro de dois, três anos, não sei. Mas que devemos aproveitar a crise para nos reinventarmos, é de ordem. Não podemos cair já como o Império Romano, porque já caímos.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…