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A mostrar mensagens de Julho, 2010

Novidades do Crime Branco

Vinha há dias num dos melhores jornais do mundo, o "Guardian": o Vaticano considerou, em termos de crime muito grave, numa recentíssima revisão do Código de Direito Canónico, a ordenação de mulheres.
Se isto não bastasse já para suscitar terror e piedade, na melhor tradição aristotélica (terror pela ideia, piedade pela tacanhez de espírito), o outro crime mais grave, comparável à ordenação de mulheres, é... a pedofilia.
É tão inacreditável que não merece comentário. Mas é preciso dizer que o desrespeito profundo da Igreja Católica pelas crianças abusadas, e pelas mulheres, atingiu níveis medievais.

A Crise, I

E aí está: maremoto, fantasma, leão, bárbara: à porta. Ruge e vibra, como um medo concretizado, mil rostos contra todas as formas das ilusões.
O que nos custará a sua chegada? Alguns dizem: o estado criará bancos próprios, é um regresso à economia estatizada, um neo-soft-comunismo de salvações nacionais. Outros, o fim do euro. Outros, o regresso da troca directa que a Europa não conhece há muitos mil anos. Outros, só, o fim de cem anos de ilusões de um desenvolvimento suspenso em dinheiro que não existe, dinheiro estruturado em valores atmosféricos, desde que perdemos a ligação ao dinheiro real, desde que o valor do dinheiro deixou de estar indexado ao ouro (lembram-se decerto da inscrição nas notas de escudos "X escudos Ouro"?).
Maremoto, fantasma, leão, bárbara: cada tempo precisa dos seus fantasmas. Não apenas cada tempo: cada decadência. Para alguns Bizâncio foi apenas isso, um exemplo de uma decadência resistente durante mil anos: rodeada de fantasmas, maremotos, bárbaros…

Duetos Palavrosos, I

Johann Sebastian Bach: Concertos Brandenburgueses

Meu pai tinha disco antigo com essa música, tinha na capa um quadro antigo com flores. Depois eu ouvia ele ouvir essa música, enquanto eu brincava no jardim. Para mim os Concertos de Brandenburgo cheiram a flores. A árvores imensas. A sol estendido como gato no jardim.
Eu prefiro o Concerto primeiro, me parece uma festa onde só eu fui convidado. É música só para mim, nem imagino ouvir com alguém. Tive namoradinha de violino eu era adolescente, ela ensaiou essa peça para tocar com colegas, eu nem quis ouvir ela. Acho ainda hoje que a gente separou por isso.
Sentimentos da alma, essas coisas antigas que são explosões de perfumes, no Concerto No. 6. Ou um jogo de xadrês, que é o Concerto No. 5

Meu pai ouvia o disco de Nikolaus Harnoncourt. Ele veio uma vez tocar perto de nossa casa, com o seu Concentus Musicus Wien. Me pareceu que os gestos dele seguravam a música. Depois também gosto de Jordi Savall. Mas mesmo mesmo eu ouvo muito Pablo Casal…

Duetos Palavrosos, I

J. S. Bach, Concertos Brandenburgueses


O Dário Sopleen e eu gostamos de música, mas segundo alguns amigos comuns e leitores, nos quais me conto, ele é menos chato a escrever do que eu. Então combinámos falar de música, eu como de costume (talvez um poco piu presto), ele à sua maneira. Concordámos os dois que falaríamos dos Concertos Brandeburgueses de Bach.

Comecei a ouvir música nos Concertos para Violino de Bach. Mas o primeiro CD que o meu pai me ofereceu foram os Concertos Brandenburgueses Números 1 a 3 (são 6 no total), da velhinha colecção "Papillon" da RCA, com Franz Bruggen na flauta, Gustav Leonhardt na direcção. A sensação de um mundo novo era demasiada: a minha cabeça explodia com tantos sons: eu queria parar o CD sempre, ouvir cada pormenor, calar os outros instrumentos para ouvir o que uma flauta voava, o cravo subia, um violoncelo mordia. Depois passaram anos, e passei-os mais em Beethoven e Brahms do que outra coisa qualquer. Paguei as contas de ser chato aos 20…