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Uma ideia para o 10 de Junho

Anda para aí uma agitação curiosa sobre os feriados. E que tem toda a razão, mas que esconde uma discussão mais séria e maior. A maioria dos feriados que temos têm a ver com a nossa tradição religiosa, de um catolicismo abraçado pelo estado e tão ardentemente vigiado. É natural, por isso, que tenhamos mais feriados que os franceses, alemães e ingleses, que andaram séculos divididos religiosamente, e que não os poderiam ter.
Como religioso, acho a maioria dos feriados religiosos absolutamente banível: como feriados - apenas. Acho inclusivamente que quem é um católico praticante o deveria registar junto do estado, como se faz na Alemanha, para que parte dos valores do seu IRS seja entregue à sua Igreja. Com isto, os católicos registados poderiam gozar de tolerância de ponto (e apenas isso) para as festas religiosas. Claro que alguns deles, como o dia de Natal, a Sexta-feira Santa, o Corpo de Deus (que tem ressonância forte ainda em algumas zonas do país) se poderiam deixar; ou os santos padroeiros de certas zonas, mas que são feriados municipais. Tudo o resto, pufff.

Segunda questão: as comemorações dos feriados nacionais. Antes de mais, deveria haver um dia da Europa, como feriado da UE obrigatório. Nesse dia (ou na véspera, vá lá), deveríamos reflectir no que isto significa, que é algo que a crise actual tem mostrado que é a UE é apenas o encosto de várias solidões e desconfortos.


Mas os feriados nacionais: quem se revê neste modelo? Quem o comemora? O dia 10 de Junho, por exemplo, "dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas": tudo isto me fala do primeiro país que trabalhou, viveu e criou a globalização. E que tem em si dezenas de comunidades que nem sabe o que são. Porque não neste dia criar comemorações de vizinhos, de bairro, em que portugueses, europeus, chineses, indianos, brasileiros e todos mais, se encontrassem para comemorar a diversidade que sempre foi a nossa marca. Lembro-me sempre de um aluno meu estrangeiro que me pediu para explicar a bandeira nacional: «Vocês têm lá tanta coisa!» Repetiu a frase quando ouviu falar de esfera armilar por causa dos descobrimentos, castelos por causa das guerras contra os mouros, e acrescentou: «Vocês são realmente um país que tem o mundo todo lá dentro». Nunca mais me esqueci.
Mais do que discursos, sardinhas, chouriço, imperiais, caracóis, bjecas, chicken xacuti (que é de Goa), chop-suoy de vaca, feijoada à brasileira, quindim. E quadras.
As autoridades locais (as câmaras e as juntas de freguesia) deveriam tratar de organizar por bairro as condições mínimas para as celebrações, e avisar todos os residentes. Garanto que muito mais que um fim de semana alargado, o sentido deste feriado faria muito mais, até pela economia, até pela ideia de Portugal. Que neste momento, ninguém sabe o que é.


Como eu gostaria de num dia destes, ouvir qualquer presidente, qualquer, dizer-me alguma coisa de relevante sobre o que é Portugal. Como me falta, só me resta ler Jorge de Sousa Braga, no seu poema «Portugal»:


«Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente


Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem) (...).

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