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O nascimento de um novo artista


Bruxelas, tarde de Junho. O meu sobrinho Rodrigo está pela primeira vez numa grande cidade fora de Lisboa, a primeira grande cidade dele aos dez anos de vida. «Em que é que reparas de diferente?», ele parece distraído, entre as copas demasiado verdes das árvores e as casas de tijolos. Ainda está com a cabeça no Museu Magritte. O Rodrigo - nome de guerra Rô - desenha muito bem desde muito pequeno (ajuda e influência do pai dele, que para desenhar os Sena-Lino nunca tiveram jeito). A minha irmã Papi, que veio connosco, teve a ideia excelente de lhe darmos um caderno de viagem para ele registar; eu, ainda com saudades da minha viagem anterior, tinha-me só lembrado de lhe dar uma pequena máquina para ele ver a cidade pelos olhos dele.

Mas o caderno no Museu Magritte foi demasiado útil. Pegou numa "bic" e sentou-se à frente dos quadros que o marcaram mais. E desenhou, desenhou, desenhou: reproduzia as figuras detalhadamente, como as via nos quadros, mas depois dava-lhe qualquer coisa dele; e no final oficializava a mistura com um título inventivo e misto. Fez isto para vinte quadros. No final de um dos primeiros desenhos, perguntei-lhe se não queria pôr que era a partir dos quadros de Magritte. Ele olhou para a assinatura do belga, parecia querer assinar com detalhe para não se esquecer de nada, mas o que fez foi assinar «MAGRÔ».

E assim nasceu um novo artista.

Comentários

MJLF disse…
MAGRÔ é muito bom !
bjs
MJ
Eu disse…
LOL Fartei-me de rir com a assinatura "alternativa"... Parabéns ao pequeno génio :)

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