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Na morte do «avestruz lírico»

Ontem morreu o poeta António Manuel Couto Viana. Conheci-o relativamente bem, e melhor de certa forma indirecta. Era amigo da minha avó Natércia, se bem que ela vivia em distância em relação a tudo o que tinha a ver com amizades literárias - mas isso seria objecto para todo um livro. Mas conheci sobretudo o Couto Viana dos anos pós-25 de Abril, que produzia infatigavelmente livros de poesia de pendor nacionalista. Contou-me com gosto, que uma vez lhe bateram um dia à porta de casa recitando-lhe o seu poema «Portugal», uma quadra que reflectia uma certa visão do país, acabando (e cito de memória): «Fizeram-no assim para caber numa mão, fechada!».

Mais tarde, nas "Tardes Poéticas" que organizei na FCSH em conjunto com Diogo Bento, Cláudia Chéu e tantos outros (o "Grupesco"), orientados por Clara Rocha, nos anos 1997-2000, dedicámos-lhe uma sessão. Nós líamos toda a obra, seleccionávamos, um crítico ou professor apresentava previamente em 15 minutos. Alguns poetas vivos tomaram a sessão em mãos, orientaram-nos, como Ana Hatherly, Alberto Pimenta - e Couto Viana. Fizemos uma sessão que não tinha nada a ver com a nossa ideia de recital nem de poesia, mas aprendemos muito de um certo tempo de "arte de dizer", que ele também tinha trazido da grande diseuse que era a sua irmã Maria Amélia. A sessão foi cronometrada, rigorosa, cada um a levantar-se da cadeira por ordem e a pronunciar as palavras com detalhe. Lembro-me da sua condução de maestro, nos ensaios, com a bengala a marcar tempos e dicções. Era um homem alto, de bengala, com um certo ar de quem saiu do Expresso do Oriente na estação errada. Os olhos azuis escondiam-se por detrás dos óculos de lentes grossas. A voz era bem colocada e havia qualquer coisa de encenação rigorosa nos gestos, que lhe devia ter ficado de anos de encenador no "Teatro do Gerifalto".


Tinha nascido em Viana do Castelo em 1923, no mesmo ano que Natália Correia e Mário Cesariny: maior diferença de perfis era inimaginável. Com David Mourão-Ferreira et alii foi um dos poetas da revista "Távola Redonda". A sua reacção ao neo-realismo era sobretudo política, já que a sua poesia mais tardia tem um retrato social, sobretudo da burguesia macaqueante, a que um realismo socialista anos 1930-1940 mittel-Europa chamaria um figo - basta ler Café de Subúrbio.
Nunca me revi na poesia sebastianista e ácida dos anos 70-80, nem na sua postura claramente simpatizante do Estado Novo, que nos custou uma pequena troca de palavras. Mas levantou-se desse tema poético para esses anos 90 da imagem do velho poeta de café, irónico, bastante diferente.
Alguns críticos, e alguns meus colegas de geração, encontraram nele raízes ou ressonâncias de uma poesia do quotidiano. Isso deve ter sido uma das últimas felicidades de Couto Viana, que era sobretudo, e na verdade, um poeta do século XX - que acordou e se apercebeu que o seu mundo (o de um Portugal entre o Quarto e o Quinto Império) acabou; e se se refugiou no século XIX, donde enviava pequenos torpedos de ironia para os anos 1990.
O que me marcou na poesia dele - e ainda marca hoje - não é nem a poesia desencantada. É uma auto-ironia onde começou a sua poesia, que se ligava com a de Sá-Carneiro, e que é uma das imagens mais bem construídas, a la longue, na poesia do século XX. Essa voz foi-se perdendo, mas ressoa com um humor profundo, que fez com que se colasse a ele o título do seu primeiro livro, O Avestruz Lírico:


«Avestruz:
O sarcasmo de duas asas breves
(Ânsia frustrada de espaço e luz,
De coisas frágeis, líricas, leves);
Patas afeitas ao chão;


Voar? Até onde o pescoço dá.
Bicho sem classificação:
Nem cá, nem lá. (...)».


É este gosto pelo «inclassificável» que, afinal, mais que a sua persona, ficará na sua poesia, que atravessou sessenta anos, e é um caso fascinante de análise de como os cânones literários são mais mudáveis do que as modas.

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