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A Companhia do Eu, escola de escrita criativa que fundei há cinco anos, está a comemorá-los. Como ontem, num jantar de gala, em que se juntaram 55 amigos (apesar da mania das capicuas, não foi de propósito...). Aqui segue um excerto do discurso final, agradecendo a todos tantos anos de apoio, confiança e amizade.


Nunca pensei que a Companhia fizesse cinco anos, porque – devo confidenciar hoje – nunca aprendi a esperar que o melhor dos seres humanos se encontrasse facilmente. A Humanidade era sempre uma ideia utópica, acessível na Literatura e nas Artes, na família e nos amigos íntimos, ou nas viagens mágicas do Pedro Barros e por sítios desconhecidos. Pensei sempre que o mal que os humanos fazem uns aos outros terminasse este projecto – isso e as dificuldades de gestão. Enganei-me redondamente. Como em qualquer projecto humano, o pouco, se entregue totalmente, multiplica-se e chega para muitos. O que importa é a partilha absoluta. E esse hábito fez-se regra: dos textos aos grupos, da edição das Bicicletas aos retiros de escrita que só são verdadeiramente produtivos quando alguém sai de si para ler ajudando outro colega. A Companhia é e sobrevive porque é o lugar de uma generosidade criativa absoluta. E isso, esse mistério feito paredes e lugares de alma, deve-se apenas, apenas e apenas a cada um dos seus alunos.
Hoje sinto-me esmagado – porque sou o mais pequeno de todos que aqui estão. Porque me conheço e sei a minha finitude, porque vivo com a consciência aguda e permanente da minha limitação. Para mim todo este mistério é maior, porque, de facto, sou alguém que tem muito pouco para dar, mas que o procura dar totalmente. Porque o meu projecto de vida, mais do que uma escola de escrita, é um lugar onde o conhecimento não seja instituído, mas partilhado; os dons, multiplicados; e a escrita e a partilha, um lugar apenas onde cada um sobe mais dentro de si mesmo, e ganhando consciência alargada de si próprio, toca no universo inteiro. Se fôssemos uma escola de escrita competitiva, um lavatório de egos, uma estufa de personalidades raras, nenhum de nós estaria aqui hoje. Porque cada um de vós aqui está porque quer ser mais vivo, ir mais longe no espírito e não apenas em objectivos pequenos e egoístas, é que este milagre acontece.
Mas cinco anos para mim, para nós, não são de todo cinco mil oitocentos e quarenta dias. São centenas de pessoas que saíram das aulas com os olhos a brilhar e o coração quente. Com centenas de novos corações a respirar em palavras novas. Não são os dias difíceis, as contas apertadas, os cansaços. São os milhares de textos onde uma pessoa se levantou e se sentiu única no Universo, são as dezenas de milhares de exercícios onde se comeu em conjunto o pão único e verdadeiro da partilha do melhor que há dentro de cada um. São os minutos breves tocados de infinito de frases que saíram do mundo fechado de cada um para se tornarem um corpo único, múltiplo, unido, uma comunidade de verdade. É a sensação de chegar a casa com os ouvidos a latejar e o coração pesado de tanta luz generosamente partilhada. É o mistério de se construir alguma coisa tão pequena para o mundo de hoje em dia, tão risível para os que querem fazer casas no lucro ou na ganância, na auto-satisfação, na rasura desrespeitante do outro – mas tão grande. Grande na medida em que cada um se oferece inteiro aos outros, grande porque cada frase, cada texto, cada curso faz com que aqui cada um se encontre profundamente, ganhe forças para a vida, se grave em absoluto na sua própria vida. Grande porque uma espécie de invisível – o do coração criativo a descobrir-se – é o pão misterioso que partilhamos em cada sessão. (...)
Agradeço à equipa que trabalha com um esforço muito maior do que aquele que apenas se entrega ao trabalho: Alexandre Nave, Ricardo Miguel Gomes, Mariana Alvim, Francisco Ribeiro Rosa - e sobretudo à alma de tudo isto, Estela Baptista Costa.

Termino agradecendo a todos os que todos os dias criam obstáculos, problemas, oposições, conflitos e complicações à Companhia do Eu; a todos os que lhe desejam mal, que trabalham para que tudo não funcione. Agradeço-lhes cada dia de há cinco anos atrás até hoje: sem o vosso obstáculo, esta história não era um enredo inquietante e produtivo.
Da minha parte, faço a todos vocês um gesto grato pela vossa presença, e uma promessa: não pararemos, não nos aburguesaremos, não pararemos no espaço nem no tempo. Cada ano será um espaço de reinvenção. Reinventaremos tudo, seremos sempre energia – não de uma forma artificial e exterior, como um lema estéril e exterior de uma empresa cool, mas com a certeza permanente de que a nossa energia está alicerçada na vossa capacidade de entrega.

Comentários

sakiko wang disse…
com muita pena de não ter estado presente.
saudades de aprender*

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