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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2010
A Companhia do Eu, escola de escrita criativa que fundei há cinco anos, está a comemorá-los. Como ontem, num jantar de gala, em que se juntaram 55 amigos (apesar da mania das capicuas, não foi de propósito...). Aqui segue um excerto do discurso final, agradecendo a todos tantos anos de apoio, confiança e amizade.

Nunca pensei que a Companhia fizesse cinco anos, porque – devo confidenciar hoje – nunca aprendi a esperar que o melhor dos seres humanos se encontrasse facilmente. A Humanidade era sempre uma ideia utópica, acessível na Literatura e nas Artes, na família e nos amigos íntimos, ou nas viagens mágicas do Pedro Barros e por sítios desconhecidos. Pensei sempre que o mal que os humanos fazem uns aos outros terminasse este projecto – isso e as dificuldades de gestão. Enganei-me redondamente. Como em qualquer projecto humano, o pouco, se entregue totalmente, multiplica-se e chega para muitos. O que importa é a partilha absoluta. E esse hábito fez-se regra: dos textos aos grupos, da e…

Brussels Blues

O que significa uma cidade a que se regressa? O que sou eu para a cidade enorme a que volto, quem é este corpo encruzilhada de passados e de futuros para a energia de uma cidade? Penso que nunca sei o que significa a presença de um ser numa cidade enorme, o seu peso de absoluto nas contas de significado das trocas de presenças. Uma cidade é rica de almas, de expectativas, das potências afectivas com que cada um faz alargar ruas, monumentos, capitais de alma.

E depois penso como esta cidade ficará gravada na memória do meu sobrinho Rodrigo. O que se lembrará ele de Bruxelas daqui a uns anos? Que cruzamentos de luz, de frases, de fachadas e de sombras vão sobreviver na sua memória, vão causar de encontros futuros?

Penso de novo que nunca saberemos verdadeiramente o que é uma cidade. Na verdade, porque é que elas existem, com o seu corpo de passado poderoso de significado, e se prolongam no tempo e no espaço da terra, e no tempo e no espaço do coração. Que milhares de almas não humanas …

O nascimento de um novo artista

Bruxelas, tarde de Junho. O meu sobrinho Rodrigo está pela primeira vez numa grande cidade fora de Lisboa, a primeira grande cidade dele aos dez anos de vida. «Em que é que reparas de diferente?», ele parece distraído, entre as copas demasiado verdes das árvores e as casas de tijolos. Ainda está com a cabeça no Museu Magritte. O Rodrigo - nome de guerra Rô - desenha muito bem desde muito pequeno (ajuda e influência do pai dele, que para desenhar os Sena-Lino nunca tiveram jeito). A minha irmã Papi, que veio connosco, teve a ideia excelente de lhe darmos um caderno de viagem para ele registar; eu, ainda com saudades da minha viagem anterior, tinha-me só lembrado de lhe dar uma pequena máquina para ele ver a cidade pelos olhos dele.
Mas o caderno no Museu Magritte foi demasiado útil. Pegou numa "bic" e sentou-se à frente dos quadros que o marcaram mais. E desenhou, desenhou, desenhou: reproduzia as figuras detalhadamente, como as via nos quadros, mas depois dava-lhe qualquer co…

O "guião" desgovernado

Na manchete do "DN" de ontem, uma notícia inacreditável: "Guião da Igreja 'abençoa' Bagão ou Santana" (pode ler-se aqui).
Parece que um guião 'abençoado' pela hierarquia tenta que um candidato de direita concorra contra Cavaco Silva nas Presidenciais, sobretudo contra a sua decisão de promulgar o casamento gay. Tem sido objecto de homilias nas missas, inclusivamente. Este 'guião', secreto como é marca da Igreja em tempo Ratzinger, é um verdadeiro escândalo. Chega-se a referir, segundo a notícia, que nos "tempos de crise que vivemos" a posição de Cavaco deveria ser outra.
Como católico, em choque pergunto: e um guião para os católicos agirem no tempo de crise económica em que nos encontramos? E a Conferência Episcopal, e cada bispo, e cada padre de cada paróquia a moverem-se para encontrarem soluções, dentro das suas comunidades, para que um espírito verdadeiramente evangélico se mova para que se auxiliem as famílias em risco de desem…

a autobiografia do futuro eu #1

«I'm not ready to love» (Rufus Wainwright)

Não há nome para o espaço que fica entre a noite e a madrugada: mas ele existe, és tu. São as primeiras luzes do sol, ainda sem alba, quando já não é noite cerrada, mas tu existes a cada instante, como uma promessa.
Durante tanto tempo tentei impedir esta parte da noite de existir. Agora tenho perfeita consciência dela, perfeita forma. É por isso que não deixo que os raios de sol entrem pela janela: espero o preciso momento em que a noite acaba e o sol surja ainda como uma promessa, talvez impossível: e fecho-a.
Não estou preparado para amar. E estou. Esta música nega-o, aceitando-o, tal como o sol que cada manhã diz que perdi o caminho para o meu próprio coração. E desenha o seu caminho de volta, todos os dias. Até que eu perceba que eu estou, que tu estás, e o destino da noite é acabar com o sol.

Uma ideia para o 10 de Junho

Anda para aí uma agitação curiosa sobre os feriados. E que tem toda a razão, mas que esconde uma discussão mais séria e maior. A maioria dos feriados que temos têm a ver com a nossa tradição religiosa, de um catolicismo abraçado pelo estado e tão ardentemente vigiado. É natural, por isso, que tenhamos mais feriados que os franceses, alemães e ingleses, que andaram séculos divididos religiosamente, e que não os poderiam ter.
Como religioso, acho a maioria dos feriados religiosos absolutamente banível: como feriados - apenas. Acho inclusivamente que quem é um católico praticante o deveria registar junto do estado, como se faz na Alemanha, para que parte dos valores do seu IRS seja entregue à sua Igreja. Com isto, os católicos registados poderiam gozar de tolerância de ponto (e apenas isso) para as festas religiosas. Claro que alguns deles, como o dia de Natal, a Sexta-feira Santa, o Corpo de Deus (que tem ressonância forte ainda em algumas zonas do país) se poderiam deixar; ou os santo…

Na morte do «avestruz lírico»

Ontem morreu o poeta António Manuel Couto Viana. Conheci-o relativamente bem, e melhor de certa forma indirecta. Era amigo da minha avó Natércia, se bem que ela vivia em distância em relação a tudo o que tinha a ver com amizades literárias - mas isso seria objecto para todo um livro. Mas conheci sobretudo o Couto Viana dos anos pós-25 de Abril, que produzia infatigavelmente livros de poesia de pendor nacionalista. Contou-me com gosto, que uma vez lhe bateram um dia à porta de casa recitando-lhe o seu poema «Portugal», uma quadra que reflectia uma certa visão do país, acabando (e cito de memória): «Fizeram-no assim para caber numa mão, fechada!».

Mais tarde, nas "Tardes Poéticas" que organizei na FCSH em conjunto com Diogo Bento, Cláudia Chéu e tantos outros (o "Grupesco"), orientados por Clara Rocha, nos anos 1997-2000, dedicámos-lhe uma sessão. Nós líamos toda a obra, seleccionávamos, um crítico ou professor apresentava previamente em 15 minutos. Alguns poetas viv…