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Uma cidade do outro lado dos olhos

Capítulo 15 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio

O Grande Bazar: um fio confuso de cores, ruídos, lojas. Lembrou-me os souks em Israel, quando tinha quinze anos e muitas coisas por detrás do olhar.
Não se pode passear sem que alguém nos pergunte, alguém nos abalroe, ou uma confusão de grupos espanhóis ou japoneses choque contra o olhar aberto. Procuro uma coisa, sou logo puxado por alguém, sou logo levado para dentro de uma loja. E depois de uma conversa a regatear preços, sou logo bem enganado.
Quero sair daqui, mas fiz mal as contas da roupa a trazer na mochila pequena e esburacada. Falta-me uma t-shirt. Encontrar alguma coisa que não diga «Istambul», «Turkey» ou seja boa imitação é difícil. Lá passo de boca em boca, e alguém me leva a um homem sério, que me pede um preço razoável. Guardo as coisas no saco e vou para o Hotel, com o sol a pôr-se sobre este dia enorme sobre a avenida Sultanahmet entrecruzada por vendedores de tudo.
Cansado, depois do dia imenso, decido fazer-me um presente: posso ir ao Hammam (o banho turco) e à Sauna do Hotel de graça; pago mais cinco euros e ofereço-me uma massagem. Passo do calor da sauna ao frio do banho turco, depois para a sauna, depois para o chuveiro. Ocidental, levo a toalha do duche amarrada à cintura, mas a ucraniana massagista, que me esperava limando as unhas nos bancos à saída do Hammam, e me conduziu brancamente pelas escadas até à marquesa (dir-se-á aqui sultanesa?), no seu pouco inglês e nos gestos bruscos, só diz «Sir!». Estou deitado de barriga para baixo com a toalha a cobrir-me da cintura até aos pés. Como noutras ocasiões massagentas, limito-me a levantar a toalha até ao cimo das pernas. Mas os gestos eslavos começam a puxar pela toalha, com força. Eu levanto, ela puxa. «No, Sir!», e eu subo a toalha um pouco mais. «Sir! Sir!», diz ela zangada. Começo a perguntar-me em que tipo de massagem estou. Resoluta e irritada, puxa-me a toalha, e ali estou eu, rabinho ao léu, nas mãos da massagista. Mas suavemente me cobre com um lenço, e durante cinquenta minutos eu descubro que tenho músculos que nem sabia que tinha. Rejuvenescido, a última camisa lavada, sigo para o pomposamente chamado «Business Center» (que é um computador em cima de uma secretária kitsch triunfante) para actualizar o blogue. As respostas e comentários dos leitores generosos emocionam-me e relembram-me que a viagem não terminou.
Como qualquer coisa péssima no hotel, e caio na cama como morto. Tão morto que nem pus o despertador.
É o ruído dos muhezzin a chamar para a oração que me acorda. Não sei que horas são, eu perdi a noção total das horas. Dia 2. Neste dia é claro para onde vou e o que quero. O meu Strolling through Istambul diz-me que toda a zona a norte da cidade se encontra com as minhas velhas leituras: a Mesquita das Rosas (antes Igreja de Santa Theodora, uma das mais arquitectonicamente perfeitas), o Patriarcado Ortodoxo de Istambul, a Porta dos Cavaleiros, o Palácio de Blachernae.
Este nome intoxicou os meus sonhos durante anos. Nesse lugar de alma escrevi um conto, comecei um romance que ainda é adolescente, e imaginei Teodora e Irene sentadas sobre o presente espantado por mulheres imperatrizes.
Decido ir antes ao outro lado (Stambul), atravessando a ponte azul de Galatha. Do outro lado, sento-me e escrevo perante Istambul misturada com Bizâncio: vêem-se as muralhas a cair do passado para o presente, minaretes e ruínas, cores e o movimento das colinas. Percebo porque tanta gente se apaixona por Istambul, mas quem eu amo mesmo é Bizâncio. Sinto-me como alguém que vai visitar a casa de um velho amigo que morreu, e vê a casa com hábitos novos e apenas distantes marcas do seu velho amigo.
E para mim, no outro lado da cidade, é claro então: eu não vim ver Istambul, eu vim ver Bizâncio. As ruínas são o destino dos meus olhos. Não vou ver a Mesquita Azul, não vou ver o Topkapi. Eu venho chorar um Império, eu ainda estou na manhã de 23 de Maio de 1453, quando Constantinus Posthumus vestiu a armadura dos imperadores antigos e decidiu morrer como o seu nome lhe pedia.
Estava ainda muito longe de pensar o que esta conclusão ia fazer acontecer em mim.

Comentários

Tereza disse…
tens que ler “Tirant le blanch” de Joanot Martorell.

É uma história alternativa – a narração do não tempo – e conta a história de Tirant, guerreiro, que entre muitos feitos, impede que Constantinopla seja tomada pelos turcos em 1453, impedindo a queda do império Bizantino.

:)

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