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Trépak

Capitulo 8 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio
(Viena-Budapeste, Budapeste-Fronteira Hungaro-Sérvia)

Chego afinal as onze da noite a Budapeste. Ja estou na Hungria.
Espera-me uma chegada sem certezas, ou directamente para Sofia. O comico é ter de passar por Budapeste o rapaz que aos treze anos sabia de cor a historia do Imperio Austro-Hungaro – mesmo que na altura se chamasse ainda Sacro Imperio. Ter de passar por Viena e Budapeste, os dois angulos austro-hungaros. Lembrei-me do romance de Chico Buarque e pensei “p... da cidade, que ficou invejosa”.
Adormeci depois de mais uns capitulos da Odisseia. Telémaco anda a procura do pai e os pretendentes da mae vao armar-lhe uma cilada e meter-se no meio do caminho dele. O revisor das eslavouras, agora ja so com uma, e que passo a chamar de salvador (embora nao tenha nada contra a bigamia), apareceu tranquilizando-me de novo sete vezes. “Ten minutes, ten minutes, smoke not anything, ja?” Arrumei a trouxa, sobretudo de livros espalhados. Ele entao chamou-me e levou-me pelo comboio fora. No fim desta carruagem, que eu achava ser a ultima, e onde antes havia o horizonte, estava uma outra carruagem, munida do respectivo revisor sorridente. Sai com o revisor-salvador. A noite era grande, e pela esquerda do comboio um centro comercial munido de Tesco e luzes azulantes oscilava fora do espaco e do tempo. Um mecanico fato-macacado ligou as duas composicoes com um ferro enorme. Parecia um documentario sobre as maravilhas da metalurgia na URSS, daqueles em que o Stalin aparecia muito maquilhado a abracar camponesas, com musica que obrigaram o Shostakovich a fazer ou ia para o gulag. Ele explicou-se ao outro enquanto eu via na cabeca o filme, sempre pontuado por operarios e operarias a baterem o ferro, de camisas suadas e sujas pelo esforco dos seus instrumentos. Esta viagem de wagons-lits, comboios nocturnos, trocas, bilhetes, cidades enormes assim como paixoes um dia depois do outro, fazem perder a nocao de espaco tempo e dao redea solta ao subconsciente. Freud, que pena nao ter ido a tua casa em Viena, mas fizeste bem o teu trabalho.
O revisor-salvador la se explicou num eslavouro qualquer, o outro acenou, voltou-se para mim com um OK, e eu agradeci-lhe tantas vezes quanto podia. Fiquei a pensar que lhe deveria ter dado alguma coisa, fosse o que fosse, mas tive apenas um sorriso e muita gratidao. Espero que ele a tenha sentido do fundo de um coracao intercontinentalmente perdido nos comboios de Leste.
O revisor actual, talvez servio ou bulgaro, fala sete palavras de ingles. Nao temos senao a seriedade para falar um com o outro. Viu o bilhete, deixou-me ir fumar um cigarro no chao liquido e imparavel da plataforma de Budapeste. “Tuenti minutees”, e apontou-me num anuario com uma fotografia desfocada de um comboio tgv frances mas que dizia MITROPIA as 17h30 a que chegariamos amanha a Sofia. Sao portanto, senhoras e senhores, dezoito horas e quarenta e cinco minutos de percurso dentro deste comboio. A carruagem cama onde fico é a mais pobre e maltratada em que fui. Sobreviviveu ao inicio da cortina de ferro, e ao fim – alias, a propria da cortina esta tao suja que parece de ferro. E partimos agora na direccao contraria, outra vez.
Percebo agora que os comboios se partem nas grandes cidades, e por isso estas demoras de 30 minutos. Parte vai para aqui, parte para acoli, mais os vagoes de carga.
Nao me parece haver mais ninguem nesta carruagem. Isso explica algumas coisas. Esta é a ultima carruagem do comboio. Oico os passos do revisor de um lado para o outro. Ao lado da cama, coberta com um lencol que ja deve ter recebido os apparatchiks do PC bulgaro ha vinte anos atras, a escada que da acesso ao beliche por cima de mim treme por todos os lados, a corrente tambem, e vejo que a janela esta presa com fita cola, sendo que a ultima parte literalmente é aproximativa. Fui ter com ele para confirmar a hora, mostrou-me a casa de banho sem luz e tentei perceber se teria mais alguem a dormir comigo no wagon-lit. Fez um gesto grandiloquente, e eu fiquei na mesma.
Voltei para o wagon-lit. Apareceu-me outra vez. So dizia yes e no ou apenas acenava com a cabeca. Disse-me que me trancasse muito bem e so abrisse se ele tocasse duas vezes seguidas. A escada tremeu quando ele fechou a porta. A escada que treme, a escada sem chao.
Parece-me ser uma viagem longa demais para nao dormir. Tenho dormido sempre, mas é um sono acordado. E se calhar tenho de dormir ja, porque a meio da noite vai apetecer-me estar mais alerta. Penso nisso sem qualquer tipo de receio, apenas programo. Mas nao preciso de me programar, porque uma calma imensa toma conta de mim, continua-me, ocupa suavemente o meu lugar em mim.
Cheira a esgoto esta espécie de mesa onde me sento para trabalhar. Na outra carruagem do revisor-salvador, com o relevo setecentista na parede, ouvia-se do outro lado uma discussao em hungaro, em jogos de cama ja sem sexo. Adormeci naquela cadencia sussurrante, perguntativa, em que ela ou ele intercalavam interjeicoes. Aqui, so a escada e a janela tremiam comigo. Li e escrevi, ate que o revisor me veio chamar, e disse-me, escancarando a minha porta, com ar grave: “Passport control”.
Nas proximas paragens, iria sentir-me um trépak, um contrabandista.

continua

PS1 – Agradeco aos amigos que colocaram comentarios ou mandaram sms seguindo o blogue. Sinto-me acompanhado no mais pequeno gesto. Rita: a emocao e a concentracao tem sido tanta que mal oico musica. Mas trouxe carregador de ipod e as carruagens, sobretudo as servias, va se la saber porque, tem ate 3 fichas de voltagem diferente. A unica ups que quero e mesmo a tua amizade.
PS 2 – Aqui onde estou, nao posso fazer upload das minhas fotografias da viagem. Quando estiver em poiso certo, transferirei profusa e manancialmente.

Comentários

Eu disse…
Olá Pedro! Que grande aventura tem tido... Espero que a viagem na carruagem assustadora termine rápido, e novas e mais limpas paragens o aguardem no caminho!! Beijinhos deste canto do mundo, Cátia (Porto)

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