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o adeus progressivo


Capítulo 18 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio


Cinco da manhã em Istambul, não vejo o sol, não vejo o mar. Uma mochila que veio quase vazia e que está cheia, acompanhada de sacos que se multiplicaram. Para onde se transportarão as coisas que transportamos? Qual será o destino de cada um destes objectos, pergunto, banhados pela viagem, por um sentido próprio. Vai-se perder na noite dos tempos, na minha noite dos tempos? A manhã que se rasga lá fora diz-me que não.

Tive uma noite agitada, cheia de sonhos, de desastres. Acabo de ler que os muhezzins que me acordaram e acompanharam vão ter formação: para melhorarem o seu canto de chamada à oração. Um curso de entoação criativa, portanto. Penso nesta ideia maravilhosa, deste Islão que tem vozes humanas a ecoarem para outras, em vez do metal dos sinos. É uma espécie de poesia dos ouvidos místicos.
Tomo um pequeno almoço antes de o restaurante abrir. Roubo o último sol nas janelas sobre o Bósforo, e procuro-o com máquina de olhos, mas há uma nuvem porosa de início de dia. Como se o dia não quisesse começar. Pois é assim que nos despedimos, Bizâncio-Istambul, para um dia irremediável.

À saída, carregando malas e pensamentos tristes, tenho uma confirmação lusitana. A máquina dos vinhos frios chama-se «Kavaklidere»: o presidente vai ser reeleito? O vinho fresco das noites de Istambul oferece-se em libação por isso, e eu secretamente desejo só que continue a fazer o seu trabalho (a máquina) e se desligue do seu poder de oráculo de Delfos. Assim o mantém e deseja a fotografia tirada a correr entre os olhares espantados dos cozinheiros.

Um táxi rápido. A cidade lava a noite anterior. Claro que volta a fazer o caminho pelo palácio em ruínas, o coração aperta-se, e aeroporto comigo. Filas intermináveis, passaportes e perguntas. Penso que me vão perguntar porque entrei numa fronteira terrestre e saio por uma aérea, mas afinal é só o olhar do «tens barba, hã».

A viagem é péssima, o avião tremelica, estou num lugar das portas de segurança. Escrevo, ensono-me, penso como será a pessoa eu que regressará aqui. E em que tempo de pessoa eu. E ponho a mão sobre o caderno de viagem, com poemas de ruínas, e levo-os pelo ar, pedindo que eu possa cumprir o seu destino.

Ao longe, nos meus olhos, enquanto oiço Nusrat Fateh Ali Khan (que me deu há anos o meu amigo Rui Santos, e que nesta viagem ganhou todo o sentido) e a Irmã Keyrouz no seu Canto Bizantino, revejo tudo. Passam as imagens todas como um flash. O filme do regresso, o filme do desregresso. O filme de se chegar a uma cidade - e que se parte em ruínas.



Comentários

Eu disse…
Sente-se uma tristeza nesse regresso à pátria do corpo actual... Espero que as recordações dessa viagem da alma sejam mais fortes do que a tristeza, num conformar inconformado da vida. Porque a vida, essa continua...
Beijinhos, Cátia (Porto)

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