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No lançamento de material angústia, parte II


Segunda parte do texto lido no lançamento do livro material angústia, com cortes e selecções

A poesia tinha começado bem antes, é verdade. Aos doze anos, escrevi uma História de Portugal em quadras, para um concurso da junta de freguesia - que naturalmente perdi. Só o ano passado, com o romance 333, percebi que a paixão pela História que me alimenta desde que sei ler, se ia cumprir nesta imaginação histórica que é a minha mão direita.

O que quero dizer é que a voz de um homem que sabe que a que tem não lhe pertence, só pode ficar alterada na raiz e no fim com a vida que não morre. Dizer, revelar o que não morre no que morre. Que uma ruína é um incêndio de sentido, uma estátua um ser vivo que sustém o tempo, uma cidade submersa noutra o espelho da nossa condição.
Depois das quadras históricas, seguiram-se muitos poemas, que queimava no quintal de casa em cada verão. Aos 15 escrevia poesia religiosa, como as freiras seiscentistas que investigo, intoxicado pela minha paixão sobrenatural que me faria seguir outro caminho até aos vinte anos, e pela leitura dos Poemas de Deus e do Diabo de Régio, que o meu pai me deu a ler – e que me fez pior que as drogas leves ou o sexo adolescente próprios da idade. Fiz sexo adolescente e fumei versos nos poemas de Régio.
Mas foi só em 1997, já a caminho da faculdade, que percebi que a poesia era a revelação de um mundo maior. Numa noite, numa circustância absolutamente banal, compus um poema de duas páginas inteiro na cabeça, enquanto vivia esse momento. Escrito só na alma, naquele momento, a gravar-se a cada batida do coração. Essa força e clareza gravaram-se no meu corpo para sempre, como uma pergunta.
Seguiu-se à constelação dos antípodas o livro as flores do sono, umas anotações nocturnas que fazia depois de ler Freud e de ouvir Shostakovich. Por desporto mostrei-as ao Rui Zink, que me disse, «isto são poemas em prosa, pá!». Voltei a editá-los eu mesmo, com os desenhos de Gaspar que parecem ser o mundo em que esses poemas têm terra.
E depois a memória do corpo. Na praia onde eu aos 14 meses ia morrendo, escrevi biofagia, uma biografia interior imaginária, em dois dias. Passou três anos guardado, a sobreviver a esse espanto. Ainda hoje me parece que não o escrevi.
Depois disso, deixei de procurar a poesia. Escrevo diariamente, à procura do que é o meu quotidiano interior. É a revolução que cada artista deve fazer apenas existindo: entupir a roda vazia do mundo com o seu quotidiano interior, contrariar o quotidiano pequeno com o dia-a-dia do espírito. Isso, claramente, aprendi-o com Santo Inácio de Loyola, e com a minha avó Natércia Freire. É pela intensidade de dentro que só existimos no mundo. Podia soterrar estes dez minutos, que se prolongam, com exemplos de como este ser vivia no mundo estando sempre a trazer água do outro, mas um chegará: já velhinhos, separaram-se pela primeira vez pela iminência da morte: o meu avô teve uma pneumonia e teve de ficar no Hospital. Fui levar a minha avó a vê-lo, passaram a tarde de mãos dadas, e quando ela se despediu, sem saber como o deixar, olhou para ele e disse-lhe: «Queres versos?», e sussurrou-os ao ouvido dele.

Um poeta é uma caixa de ressonância, de seres não visíveis, de música, de arte, de presenças não lógicas, do tempo que não é linear mas sobreposto. Ao criar, é à imagem e semelhança do movimento de criação de Deus, que nasce de si mesmo mas tem no universo o seu corpo. Por isso acredito que se deve viver em estado de vigília interior, ouvindo os símbolos que ressoam por toda a parte. Por isso, estou Poeta, está-se Poeta.

Termino. Já o disse algumas vezes, quero sublinhá-lo ainda mais hoje. Eu não sou o autor destes textos - eu sou apenas o corpo físico e cósmico que os registou; e o pastor que os acompanha até à sua morte. Não vos peço que leiam a pessoa, porque essa é breve e vale o memso peso de névoa que todos os outros – mas que leiam ouvindo o que os gerou. Os poemas são instrumentos, uma música maior os guarda e gera. É essa que deve ser procurada pelos poemas, habitando-os, vivendo neles: o sentido.
Gastei-vos muito tempo até chegar aqui, e por isso quero reforçar que nada desta charla é jogo de modéstia ou exercício de menosprezo socialmente correcto em dia de lançamento. Eu acredito que a poesia é um trabalho, como ser electricista, médico, pedinte. Um trabalho do invisível no visível. Os poemas são barcos de silêncio que ligam as duas dimensões do mundo, são os pés do espírito e a forma de haver ar interior aqui. Um dia, estas palavras serão esquecidas. Cada um destes versos cairá no silêncio; cada um de nós vai também misturar-se no esquecimento do grande Princípio. Desaparecerá o mundo como o conhecemos. Outros quererão saber como fomos, o que fomos. Mas sobretudo se fomos. Todo este dia, e dez anos, e vinte e cem, e todos os segundos de uma vida farão sentido se alguém puder compreender: esta pessoa existiu porque respirou aqui o universo. E então versos, anos e ruínas farão parte do sentido.

Obrigado à Estela Baptista Costa pela fotografia do lançamento que acompanha este texto.

Comentários

cristina disse…
Foi um privilégio estar ali naquele dia. Ver-te - e sobretudo ouvir-te - rodeado de amigos, numa cerimónia íntima, que nada tem a ver com o folclore habitual dos lançamentos. Com um sorriso nos lábios e os olhos húmidos, a tentar reter a essência das coisas nesse fim de tarde em Lisboa.
Obrigada, Pedro
A Estela Baptista Costa agradece, mas a esta foto só emprestou a máquina. Quem a tirou foi a Rita Saldanha!

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