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No lançamento de material angústia


Segue aqui, a pedido, o texto lido no lançamento de material angústia. É um pouco longo, irá em duas partes, e com alguns cortes.


Pensei bastante se este dia e esta ocasião me permitiriam falar um pouco mais do que o previsto: gosto de lançamentos breves, perturbadores na intensidade de que recordamos depois o brilho e a justeza, tal como como de livros de poesia breves, a que regressamos sempre – imitam a vida, em que um momento concentrado nos leva dias de cabeça a percorrer e a desembrulhar.
Considerei então que dez anos me permitiriam dez minutos, e é isso que farei.
Começo pelo fim, pelos agradecimentos. Ao Director e a toda a equipa da Casa Museu, que nos recebeu de novo. Ao José Rui Teixeira, ao Jorge Melícias e ao João Ribeiro, editores da Cosmorama, que entre as dificuldades que a crise levanta, aceitaram fazer este livro. E sobretudo a cada uma das pessoas que aqui está hoje, fazendo sacrifícios, mudando a sua vida, neste gesto de amizade. Sempre que nos reunimos em torno de algo imaterial (uma ideia, uma presença sobre-humana, um livro), acredito que resgatamos luz, e ganhamos espaço de respiração ao mundo pequeno em que vivemos. Abrimos o mar vermelho, criamos lugares no mundo onde “se possa reclinar a cabeça”, como dizia Cristo. E vencemos o mundinho materialista e imediato, porque celebramos o que existe para além dele. Por isto que a vossa presença significa, agradeço-vos.
E também a estes amigos, vindos de momentos tão diferentes da minha vida, a sua leitura dos poemas. Não queria uma voz exterior a lê-los, mas seres que me honram com a sua amizade. Ninguém cria sozinho - todos devemos milhares de encontros, de trocas submersas e misteriosas a tantos. Quis que a sua presença reflectisse isso. Agradeço-lhes.
Uma explicação breve, também, sobre os dedicatários desta antologia. Dois estão aqui, Alexandre Nave e José Félix Duque, dois irmãos poetas, que tantas vezes ouviram e corrigiram poemas, e ajudaram com a sua camaradagem crítica a que estes poemas transcendessem o eu que lhes deu corpo.
Depois, o Rui Zink, que não pôde estar presente por estar em viagem. O Rui foi meu professor, e apresentou há dez anos o meu primeiro livro, eu apresentei vários livros dele, ele voltou a apresentar outros tantos, e destas danças ficou uma amizade profunda. Leu, questionou, desafiou. Esta dedicatória prolonga uma gratidão inumerável.
Por fim, Thomas Brieu. Faz por este mês de Julho dez anos que este meu grande amigo, gestor e carpinteiro criativo que está actualmente no Brasil a fazer bioconstrução em bambu, e que repisa sempre que não entende nada de poesia, me disse: «Vais editar um livro? Edição de autor? Eu quero participar.» Quis ser o meu mecenas: pagou praticamente todo o livro, com a condição de ele fosse provado pelo público. Ou seja: se se vendesse, ele ficaria com o valor que investiu, e eu deveria daí retirar a notícia de que o que faço me transcendia, porque chegava aos outros. Se não se vendesse, ele suportaria os custos, mas eu deveria dedicar-me à pesca. Vendeu-se quase tudo num mês, sem distribuição nem apoios, e o livro recebeu três críticas. Eu era apenas um rapaz a acabar um curso, e tudo me pareceu um mistério maior do que eu.
Nesses anos de faculdade, a poesia parecia-me um mistério demasiado grande para poder ser franqueado pelos meus ombros. Imaginava-me crítico, ensaísta, talvez até professor, com a missão de abrir as obras, e resgatar textos esquecidos. Nunca me imaginei poeta. Consumia poesia de manhã à noite, andava com vários livros comigo. Uma gruta formava-se, interior e ressoante. Eu não era mais que um corpo que ressoava no tempo: os versos eram tudo o que eu respirava nesse tempo, barco atirado para o mistério que as palavras abrem. Lembro-me de subir o Chiado com versos inteiros de Fernando Pessoa a explodirem de sentido nas ruas. Era um dia enorme, e rios de sentido desciam as ruas todas até ao coração. Devia ter vinte anos e a gruta ocupava o espaço inteiro. Eu ressoava o sentido, tão inexplicavelmente perto e vazio. Tão demais somos o destino de um planeta, distante de nós mesmos e voltados sobre o mais invisível centro, rodeados de invisível e silêncio por todos os lados.
Desprevenido, não sabia que os versos são mais perigosos que o amor e a morte, porque são o abraço de sangue do amor e da morte. E assim deixei que chegassem, de um velho e tão mestre amigo – mesmo que ele não goste que o diga, Alberto Pimenta -, os dois versos mais perturbadores da minha vida: «Já reparaste que tens o mundo inteiro dentro da tua cabeça?/ E esse mundo em brutal compressão dentro da tua cabeça é o teu mundo?». A gruta ocupou tudo, então, quando eu devia ter vinte anos e passei a ter mil.
Andava nos versos. A minha mãe (a quem devo tudo, sobretudo o ter os pés na terra), ao ver que o dinheiro da semanada e das explicações de Português que dava seguia todo para livros de poesia e para cds de música clássica, tinha o hábito de entrar no quarto com o seu encantadoramente perguntativo meio-sorriso, pegar num cd ou num livro, e olhá-lo enquanto me perguntava: «E o que é que vais vestir amanhã? Um cd ou um livro?». Penso que foi daqui que o José Cid tirou a ideia para uma célebre fotografia.
Eu tinha acabado, nesse Maio de 2000, de ser expulso de Florença. A minha amiga Filipa Gonçalves-Ramos, comigo lá em Erasmus, dizia-me anos depois, com o seu entusiasmo antigo, «és como Dante, foste expulso de Florença, és um poeta». Não sou, nunca serei, já lá irei. Mas na verdade, devido a erros burocráticos Italo-Portugueses, no melhor remix Kafka-Erasmus, enganaram-se comigo e eu não me pude sequer esscrever. Foi um mês em que vivi a cidade com os olhos de um expulso. Havia um verso de Natércia que se misturava com a minha condição de perseguido burocrático: «expulso da paz, o coração em transe.» Não duvido hoje que esse coração então esmagado por um amor impossível, pela expulsão da cidade, pela vida secreta dos quadros e dos edifícios da cidade que crescia pelo meu manso desespero me fez começar a escrever. Não logo, mas chegado a Lisboa. Entre Maio e Agosto desse 2000 compus todos os poemas de Constelação dos Antípodas.
Mas tive a coragem de mostrar estes poemas à minha irmã Papi, que lhes encontrava coisas que eu não via, e ao Alberto Pimenta, com quem fazia performances. Esse mestre que desmonta o facto de o ser a cada passo, disse-me: «Não é o meu tipo de poesia. Mas reconheço-lhe trabalho interior e trabalho de texto.» Depois, Ana Hatherly aceitou fazer o prefácio. Mas convidou-me para lanchar uma história. Em 1962, se não erro, a Ana tinha escrito a José Régio a perguntar-lhe se ele poderia assinar o prefácio do seu primeiro livro. E Régio disse que não, mais ou menos assim: «Não quero que fique associada a mim, isso vai ser uma prisão e um limite para si.» Ana contou-me (e escreveu-o num brilhante texto aquando do centenário de Régio) que se sentia magoada, mas que muitos anos mais tarde percebeu a generosidade do poeta. E disse-me então: «Assino o prefácio, mas tem de ter noção disto. Eu não quero limitá-lo.»Com estes exemplos vivos, foi claro porque é que em 2000 dei o meu primeiro curso de escrita criativa: para libertar os textos dentro de cada um. Agradeço também por isso a todos os alunos que se confiam a este trabalho de tirar o novo no silêncio, e de encher o mundo disso. O que mais me alegra é existir um espaço, a Companhia do Eu, que mais feito de um lugar, é feito desta partilha voraz da criatividade um dos outros.

(continua)

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