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never ending trip

Capítulo 21 da viagem Berlim-Istambul de comboio

Faz hoje precisamente um mês que em Berlim Hauptbahnhof comprei o bilhete de ida para Istambul.
Ao escrever o último post da viagem, não posso deixar me sentar à margem da viagem, e vê-la correr. A notícia, única, é que cada vez mais parece interior, cada vez mais parece uma parte de mim muito grande e profunda que não está afastada de mim. Que vive aqui para sempre.
O percurso misturou-se na voz, gravou-se no ritmo do corpo. Nunca mais se regressa das paisagens feitas no corpo, vividas na solidão cósmica dos sonhos antigos cumpridos.

Todas as coisas foram encontros. Por isso, nunca mais quero deixar de viajar assim. Ao chegar ao terminal do aeroporto de Berlin-Tegel, à porta mesmo de onde o avião partiria, estava esta carruagem de metro berlinense, como a dizer: os encontros de cidades desconhecidas nunca mais te abandonarão.
Por isso, assim de todos os lados do corpo, de todas as janelas de alma, eu te convoco, viagem.
Ruínas de Blachernae, eu vos convoco: que o peso eterno dos vossos passados incumpridos se prolongue nas minhas palavras. Não tenho nada mais para vos cantar, senão palavras longas.
Pórticos de Hagia Sophia, eu vos convoco: que a vossa altura, de dois Deus que são um só, se prolongue no que procuro, porque «somos nada, e o que procuramos é tudo» (Novalis).
Grandes estações vazias, eu vos convoco: que a noite que se abate sobre os que percorrem países silenciosos nunca mais deixe pedra sobre pedra na alma: e que nenhum conforto interior impeça de ver o absoluto de frente.
Comboios, linhas férreas, enganos e alfândegas, eu vos convoco: que o que revelam dos homens crie histórias - para que nunca acabe o único processo vivo, o conhecimento.
Grandes cidades desconhecidas, em manhãs de chegada ou noites de passagem, eu vos convoco: sou um homem, um pastor de exaustas estradas; nada tenho para dar senão um corpo onde ressoa toda a alma.
Convoquem-me.

Do tempo sobreposto, dos muitos tempos que acontecem ao mesmo tempo no tempo, convoquem-me.

Prometo que aceitarei o vosso abraço, e o sangue futuro que pede: nunca mais deixar de viajar.

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