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A mãe, a leoa, Portugal 1974 e o último comboio

Capítulo 11 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio

Sófia-fronteira turca



Estou já sentado no comboio para Sófia, a comer uma sandes de paio com pepino, uma cerveja WymeHcko, duas garrafas de água Gorna Bania e UM CAFÉ! A revisora do comboio Sófia-Istambul é uma guardiã do templo, uma boa samaritana, uma sacerdotisa dos líquidos sagrados. Mais, acredito que fez a sanduiche do seu próprio lanche (cobrou por isso), mas viu a minha fome e o meu estado e maternalmente tratou de mim.



Em Sófia acabei por estar 25 minutos. A estação de comboios da capital da Bulgária era das coisas mais deprimentes que eu vi na minha vida. Assim que saltei do comboio, apareceu-me logo um tipo, fato de treino, cabelo grisalho, a saber se precisava de informação. Fui para a estação, a ver café em todo o lado. No guichet da bilheteira, uma senhora de óculos que parecia uma funcionária pública portuguesa em 1974 mandou-me para o guichet internacional, "after the change" (o centro de câmbios). Perguntei-me no percurso se a Bulgária já tinha euro, mas vim a perceber que os euros são mais facilmente aceites na Europa sem euro do que os dólares. E eu tinha euros para um café!


Achei melhor tratar do bilhete primeiro. Na repartição Portugal-1973 (sim, estamos a andar para trás) uma boa mãe encasacada e gorda, firme nos cinquenta, e um filho moreno e espantado de camisa justa e bolsinha de viagem pazia o seu gay-test numa viagem para Budapeste de comboio que o dinheiro bem relacionado da mãe ia pagar. Ela sabia do que se tratava, mas até ao fim tinha tratado de tudo na vida dele. Não seria a última vez. Aliás, até estava feliz com algo que ele já tinha percebido, e qu ele só lhe contará daqui a muitos anos. É que assim a mãe não terá mais nenhuma mulher na vida dele senão ela. Só espera é que ele não seja passivo - denota-se na maneira como lhe corrige os gestos, porque uma coisa é ser gay, outra coisa é roubarem sistematicamente a masculinidade ao filho. Olha para mim e diz-me com firmeza num búlgaro que só posso considerar irrepreensível que eu vá para o guichet ao lado. Aí passava-se qualquer coisa interessante. Os guichets davam para a rua e para o sol vermelho mas vidro-foscado da janela. Uma ruiva de olhos azuis com óculos de 1960 ia para o telefone, onde era melosa, e voltava para o lugar no guichet, onde era irritada, e passou naquele exercício dez minutos.


Faltavam 15 m para o comboio, e uma placa dizia que bilhetes para 10 m antes não eram vendidos (nem em Portugal imaginávamos uma maravilha destas!). Eu tinha 15 m para comprar o bilhete e decidir se ficava em Sófia ou não. Mas a personalidade dupla do guichet só me disse "Váit".


Então entra a louraça da gabardine. Metro e sessenta, "não mais musa não mais" (já dizia o Camões), olhos azuis, base terracota na cara, e uma gabardine preta até ao joelho, justa e acabada de sair do maior costureiro búlgaro. Andava felina e leoa olhava. Passou por mim, desprezando a minha mochila de vinte anos, rota e rompida para passar despercebido, o ar amassado. A mãe e o filho fizeram-lhe uma cara de dor de barriga e a mãe apontou para mim, decerto dizendo que eu estava à frente. Quando a loura leoa percebeu que eu era a única coisa que a separava de ser atendida naquele momento, soltou o seu sorriso, que caminhava sempre cinco minutos adiantado em relação a ela, moveu os braços, exalando um perfume dubitativo, e no seu melhor e ronronante búlgaro perguntou-me (espero, acho, creio) se podia passar à frente.
- Sorry. Istambul train. Ten minutes.
O sorriso desfez-se, o sorriso caiu no chão como uma flor esmagada, umas férias nas ilhas turcas anuladas, a perda de um anel dado por um amante.
Fui salvo de mais charme pela rapariga do guichet que me disse, sem olhar para mim e com toda a rapidez possível, que só tinha comboio agora as 19h15, ou amanhã à mesma hora. «All those trains from Sófia to Istambul, nó prroblemm", disseram-me tantas vezes os revisores... Pois era assim: ou um dia ali, e perdia um dia em Istambul, ou ia já e fazia 36 horas de comboio seguidas.
Não: era agora. O Aqueduto de Valens, Hagia Sophia, o Hipódromo, por um dia numa cidade desconhecida? A coluna de Marciano - que permite saber se a virgem é verdadeira ou falsa -, as Muralhas, o Palácio Grande de Constantino, por uma cidade onde só ouvi falar na catedral? Não, era agora. - Sô must líve náu und táke trrráin now, búy ticket in trrrráin". Mas eu queria ir sozinho, wagon-lit só para mim, estava demasiado cansado para aventuras de partilha na Bulgária,
- Second class vith óther people orrr gó tomórrow.
Era a voz do destino. Disparei. Mas não era a linha 6 como dizia no placard. Voltei ao placard, descendo tudo. Mais gente a pedir dinheiro e coisas, a agarrar-se. Linha 6A. Não era outra vez. Então reaparece-me o homem do fato de treino das informações, que me diz para correr, que me leva lá ao comboio. Chegamos. Entrou comigo, agradeci muito.
- We bulgarians like to help.
Mas eu fiz questão de lhe dar alguma coisa.
- Oh, no, no need.
Não, fazia questão, se não fosse ele tinha perdido o comboio.
Abri a carteira. Só €50 e algumas moedas. Dei-lhe um euro.
Olhou-me em desprezo profundo.
Dei-lhe mais um euro.
Desprezo de novo. Vai cuspir-me em cima, pela maneira como contorce a boca.
Dei-lhe todas as moedas que tinha, num total de 2,80 euros.
- Five euros please. I ran, my heart, old man".
Fez um ar sofredor e pôs a mão no coração. Não tinha mais. Saiu. Já fiquei com quem me maldiga para sete dias. Mas a revisora de olhos claros, a sacerdotisa dos líquidos, deu-me a cabine nº7. A plenitude. E depois a sandwich.
E um cigarro permitido à janela numa das paragens.

Ruído na carruagem, há mais gente. Vejo um casal americano entrar e sair do seu wagon-lit, e depois uma rapariga loura, alta, com ar triste. Vê-me a fumar e pergunta
- Can we smoke here?
Apontei para a sacerdotisa-revisora, que disse rispidamente para ela ("quick"). A rapariga pede-me um cigarro, pede-me lume, coloca-se ao meu lado. Chama-se Sarah. Vai para Istambul.
- I don't know why, just grabbed the first train from Budapest, and then the other.
Há qualquer coisa de estranho mas atraente na maneira dela olhar e agir. Os gestos parecem chegar de muito longe, de muitas coisas, de complexos pensamentos. Os olhos são de um verde-cinza, o corpo não parece ter idade. Tem um cor de laranja casaco polar vestido - com este calor - e não consigo perceber que idade tem. Ficamos entre o fumo e a possibilidade de uma conversa. «Tens até eu acabar o cigarro», penso para mim. Já tinha ido a Istambul, pergunto, e ela diz-me que achava que sim, tinha tido um inter-rail complicado, rapazes conhecidos nas carruagens, programas doidos de um mês. Estou a ver tudo.
Há um ruído conhecido na minha cabine. O telefone. Vou atender. Perguntam em sotaque madeirense por um homem que não conheço. «Deve ser engano». Quando volto, nem sinal de Sarah, nem do cigarro, nem das suas aventuras no inter-rail de há anos. Fecho a porta.
É oficial: este é o último comboio antes de Istambul. Falta só a fronteira turca.
Este corpo amassado por noite insones, revistas, perguntas, pouco banho, ausências, está a ser moldado para viver a cidade. Para ser desfeito de olhos contra ela. As fronteiras iam passando através do telemóvel. Cheguei a ter rede eslovaca, além da austríaca, húngara, sérvia e búlgara. A fronteira marcada por um bip no telemóvel. Antes, grupos de soldados pilhavam e matavam, castelos e defesas, recontros e batalhas, muros e ameaças - agora, um bip.

Pudesse eu dizer-vos como fui feliz num comboio nocturno entre Sófia e Istambul, as 21h21 da noite.
Pudesse eu explicar-vos como é que um homem de 33 anos, com 33 h seguidas até agora de comboio, duas cervejas, a Segunda Sinfonia de Sibelius, e a rever poemas escritos em Berlim há dois anos se pode sentir feliz.
É noite absoluta lá fora, entrecortada por luzes sucessivas e imprevistas. O ritmo do comboio impregna-se-me no corpo, é um abraço de asas metálicas.
Releio o livro de poemas que sairá este ano, e que vai ser traduzido para alemão; e este poema em concreto, escrito em Friedrichstrasse numa tarde de saudades de Agosto de 2008:
procuro a rua precisa
onde o tempo me olhe nos meus olhos antigos
e encontre o meu fim

Este poema já existia. Mas agora ao lê-lo, a caminho das ruas precisas de Istambul, compreendi como o que escrevemos nos acontece, procura-nos para se concretizar na história e na carne para depois poder ser vivo para outros. Só depois vem o livro, que vem do francês îvre - livro é a liberdade bêbada.
Adormeço suavemente. Faltam sete horas para Bizâncio. Os meus olhos pensam emoções novas.

Comentários

Inês de Papel disse…
Um abraço daqui, Pedro, sem asas metálicas e um bip...
Rita disse…
mestre, houve uma Sássára que comentou a tua entrevista no Blog. talvez a Sarah fosse gaga e por isso tivesse vergonha e abandonado o cigarro partilhado! (lá está o meu lado fofo e gregário a vir ao cimo)
Estou doida para que chegues a Istambul. Por favor, quando regressares quero que me digas como anoitece em Istambul (coisas minhas que depois explico). Bom Sibelius, essencial em momentos que deverão passar a marcos. Beijos
MJLF disse…
Que aventura, quase em Istambul!
beijinhos
Maria João
Amigo, só agora li o teu relato, mas li-o de uma penada só. Está simplesmente fabuloso. Em Istambul, recorda que em tempos aí se sentou um rapaz como tu, de mochila e barba por fazer, a olhar o Bósforo e a sentir essa mesma calma que tão bem conheces. Do outro lado estava o mais velho dos mundos novos, como os seres que estão sempre a viajar por dentro. Abraço.
Tereza disse…
sabes, Pedro

a tua viagem acorda-me o poema de Constantin Cavafy, Ítaca

um beijo

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