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«Ítaca deu-te essa viagem»: chegada a Istambul


Capítulo 12 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio


«Passport control», disse-me com voz sussurrada da uma e meia da manhã a revisora. Acordou-me. Entrou logo um senhor, que percebi que era ainda búlgaro, que me viu o passaporte sorridentemente. Desliguei a luz e adormeci outra vez. Não por muito tempo. «You have to go out to police». Pensei que era só eu, que havia qualquer problema. Saio, levando a mochila por precaução, e deixando este caderno e os livros deitando-lhe um último olhar injusticado.

Não era só eu que tinha de sair: éramos todos. Todo o comboio saiu pela noite fora. Vi um conjunto de casas, e decidida e definitiva, uma bandeira turca flamejando contra as sombras da noite. Faz muito frio, talvez 2, 3 graus. Não falta aqui o "Tax Free", cheio de gente, mas há mais gente ao lado, no departamento de polícia. Fico numa fila com vinte pessoas antes de mim, atrás da revisora, que olha para baixo não dizendo palavra. O guarda turco atrás das janelas com grades olha para o telemóvel e deixa tudo à espera. Uma família de quatro senhoras turcas entra e sai do compartimento com os seus corpos quadrados e amplos, empurrando-me sempre para trás com a mochila. Uma delas, a mais velha, tem um lenço na cabeça, três dentes só, um saco pesadíssimo ao ombro, e veste um casaco comprido com padrões que parecem ter cara de tapete. Não descansa enquanto não entra e sai. Um pai e um filho passam à frente de todos. São iguais em tudo menos na idade. A trupe avança. Atrás de mim estão os meus únicos colegas de carruagem para além da revisora, o casal americano (da Sarah nem sinal). Ela, cabelo castanho claro e olhos azuis, bonita e reservada, ele saído de um filme do Tom Ford, a quem não faltam os shorts e a tshirt Polo. Parece estar ali da mesma maneira como estaria em Berlim ou em Aspen.

Chega a minha vez. O polícia olha para o passaporte e diz «Need Visa», coisa que ninguém me tinha dito. Diz para sair. Ao meu lado no guichet uma senhora loura com chapéu e uma mala de rodinhas parece falar língua nenhuma, precisa do mesmo. Saímos ao mesmo tempo, enquanto ela murmura em húngaro-francomacarrónico, e uma outra mulher vestida de vermelho e literalmente com um casaco por cima do pijama, acompanhado de uns imortais chinelos de quarto, fuma e abre a janela do passport control. Parece habituada, não sei se a abrir janelas, se a andar de chinelos (imortais, já disse?) nas repartições turcas, ou a fumar opinosa e triunfalmente.

Saio à procura do visa; não é onde toda a gente se afadiga a comprar Tax Free, nem na repartição de polícia onde dois agentes vêm televisão, guardados por uma imagem de Ataturk, fundador da República Turca. Agradeço a informação e lá encontro, mas a senhora do chapéu e da língua nenhuma e também um pouco dura de ouvido vai para a fila do Tax Free com o passaporte. O frio é decidido, firme. Um homem de costas para mim, sem deixar de olhar para o computador, levanta-me a mão, diz de costas "50 (fifty) euros" e areependo-me de não ter levantado mais dinheiro. Afinal é "15 (fifteen)", diz-me um lindo autocolante com motivos orientalizantes, um sonho para o kitsch português, e lá vou eu para o polícia para novo carimbo. Seguiram-se a isto alguns cigarros, esperas, mais revistas, mas tudo em suavíssimo modo. E decido dormir.

Sou acordado com um toque suave. «Twenty minutes to Istambul». O aviso é um choque eléctrico. É agora. Ponho tudo na mala, o coração rebenta pelo peito. Pela janela já vejo antigas muralhas bizantinas por todo o lado, mesquitas, tudo se cruzando com o sol a nascer. Batem à porta de novo: é a revisora, que me vem oferecer um café. E assim, com este gesto, acaba a saga dos comboios.

Estação de Istambul. Atiro-me para o chão com os dois pés, como uma criança a saltar do comboio. Abro os braços, quero lá saber. Corro e salto. O destino sabe melhor depois de estar fechado. Corro, tiro fotografias a tudo, filmo, escrevo, páro. Saboreio o longo caminho de chegada da gare, a plataforma: é um símbolo de tudo o que percorri. Todas as horas gravadas no meu corpo choram e cantam. Todas as páginas lidas sobre Bizâncio, os poemas de Kavafis, vinte anos de paixão por um Império, estão ali naquele momento. O coração alarga-se, o olhar expande-se. Desde o princípio da minha vida, tudo está reunido, tudo se cruza, tudo se encontra. Sou uma criança e um velho, o rapaz que passava as noites de Verão lendo História, sou eu no leito de morte a ouvir no coração os cantos mortos de Bizâncio.

Eu não cheguei só a Istambul, eu cheguei a mim.

Comentários

Rita disse…
não sei qual era o "efeito" deste texto, mas eu desatei a chorar e também corri pela plataforma aos saltinhos!
bom regresso a cá, não é a casa....
beijos e até amanhã.
Finalmente chegámos! (sim, porque estamos todos a viajar contigo)
Patti disse…
Linda a tua "aterragem" em Istambul, Pedro!
Patti disse…
E traz o Bósforo dentro de um vidro!
Eu disse…
Parabéns pela chegada Pedro! Que a aventura não se fique por aqui, é o que desejo... Beijinhos
Inês de Papel disse…
Para além de chegares a Istambul, para além de chegares a ti, chegaste a nós...
Amanhã esperamos-te, mais inteiro do que nunca.

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