Avançar para o conteúdo principal

A eternidade torceu-me o pé

Capítulo 17 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio




Perturbado ainda pelo presente ruinoso do palácio de Blachernae, peço ao taxista para me deixar na igreja de Santa Theodora, mais à frente. O meu guia de viajante romântico por ruínas diz-me que a igreja está muito bem conservada, e que agora é a "Rose Mosque", a Mesquita das Rosas. Almoço praticamente o diário que escrevo, e sigo pelas ruas - a cúpula orienta-me. Encontro a fachada, encontro a placa, muito explicativa do pós-conquista, mas sem uma referência ao seu passado bizantino. Esta é das melhores e mais antigas igrejas. Ao lado da porta, há uma entrada por escadas com uma campaínha, mas há roupa pendurada. Parece a porta de uma casa. Dou voltas e voltas, não encontro. Contorno o edifício. Faz calor e miúdos jogam à bola: há um Mohammed que não passa a bola ao Abdullah, que grita o nome do primeiro como se fosse morrer amanhã. Desisto e continuo a descer. Mais à frente, crianças de seis, sete anos põem-se à minha volta a pedir dinheiro. Eu com o guia e o mapa na mão digo que não, tento fugir. O passeio é mau e cheio de falhas. Continuo nos nãos e nos mapas, eles à minha volta. Desequilibro-me. Caio no meio do chão. Os miúdos riem-se, os mapas também, espalhados na calçada. Apanho a chusma de bilhetes e recordações afectivas do percurso espalhados pelo chão literal. E nisto, o meu tornozelo esquerdo dá de si. Uma dor, primeiro, depois o pé que não se aguenta na posição normal. Coxeio até ao fim, encontro a Porta - a primeira porta conquistada pelos turcos. Fotografo-a mas a dor e a sensação de calor no tornozelo são enormes. Páro no primeiro café, peço um, abro o guia. Pode ser que a dor passe, penso para ter a certeza de onde vou a seguir. E volto a ler, enquanto o café e a dor se demoram, a descrição da Mesquita das Rosas.

Ali, reza a lenda, foi enterrado Constantinus Phostumus: o último imperador. Há uma inscrição que diz «Aqui jaz o último apóstolo». A eternidade torceu-me o pé. Tenho de lá ir. Pago o café, faço das forças pés novos. Subo, contorno, a dor entusiasma-me no esforço - sem ela, não tinha voltado. Percebo depois que uma porta ao lado, com uma inscrição que me parecia ser da polícia, é a entrada para a mesquita. O homem na fonte de abluções à porta sabe-me dizer zero, mas acena-me que entre. Não está lá ninguém - só um inventário de sapatos femininos deixados no chão. À direita, ouve-se uma voz de mulher, na placa que diz à porta «Madrassa». Estavam em formação religiosa, mas na porta em frente ninguém que me autorizasse a entrar. Não quis saber: tirei os sapatos e fui ver.

E tinha a mesquita só para mim. Num imponente próximo, o sol da tarde tingia cores assombradas nas paredes. Respirava-se uma luz antiga. Procurei a inscrição, mas não vi. Mas senti - uma espécie de paz do segredo. Firme e subtil, com que saí da mesquita e calcei a dor.
O táxi que me leva passou, sem eu querer, pela última coisa que me faltava na possível roteiro de dois dias em Istambul: o aqueducto de Valens, enorme e atravessando parte de uma das avenidas centrais. Resta só dizer que o homem percebeu mal para onde eu queria ir, e fez este percurso enganado. Agradeço aos erros, lembro-me de Camões (também eu este poema cumpro aqui): «erros meus, má fortuna, amor ardente».
A dor prossegue e decido ir ver o Museu Arqueológico, onde há muito Bizâncio e o túmulo de Alexandre Magno. Mas páro no jardim diante, cheio de estátuas quebradas entre estátuas. Sento-me a escrever as suas vozes. O tornozelo já se nota fora do sapato. É nessa dor física que tinha por dentro que faço o museu irritado e triste: maus cartazes, maus restos de Bizâncio. A Turquia teria de entrar na União Europeia para fazer as pazes com o seu Ocidente incluso.
Vou pôr gelo no quarto de hotel, mas estou torcido pela eternidade. Já levo a cidade mais gravada em mim do que imaginava. Decido ir tomar um lanche ajantarado de cerveja turca num café na Sultanhamet. Tomo nota das últimas coisas, e despeço-me cedo. Amanhã o avião é mais cedo do que eu penso sequer. É o fim da viagem, penso. Mas ainda falta regressar a Berlim, ainda falta o abraço de Berlim. Adormeço com centenas de versos a alargar-me o sono, e o sol a pôr-se nas janelas difusas do pensamento.

Comentários

Patti disse…
As grandes recordações também encerram algum sofrimento. E já tens o teu para esta viagem.

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…