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E ao terceiro dia, acordou

Capítulo 20 da viagem da minha vida, Berlim-Istambul de comboio


Três dias em Berlim, para voltar do ritmo do comboio; e não só: do desligar absoluto de qualquer coisa que fosse a minha vida. Nunca mais serei capaz de viver sem fazer viagens assim. Em que se é o interior profundo a ser o corpo, olhos e pés - o sentido da nossa história a viajar. Como se se apagasse o eu quotidiano, e só vivesse uma parte do eu que está no princípio e no fim da vida e da história.

O penúltimo dia foi passado num dos paraísos na terra: a Dussmann, que tem uma loja de música clássica do tamanho de todo o piso inferior da FNAC Chiado. Podemos pegar no CD que queremos ouvir (eu levo sempre uma pilha enorme), eles abrem, e ouvimo-lo directamente. Passo manhãs inteiras aqui; e a vez em que o meu pai veio comigo, parecia uma criança de dezoito anos que tinha acabado de receber a mesada.

Depois, um concerto na Philarmonie. Não é a Berliner Philarmoniker (a maior orquestra do mundo, a de Furtwängler), mas uma das várias outras orquestras de Berlim, a Berliner Symphoniker, dirigida por uma maestrina, Susana Mälkki. A Sinfonia No. 25 de Mozart, "Petrouchka" de Stravinsky e a primeira audição de uma peça contemporânea, para Trompa, Acordeão e Orquestra, de Bernhard Gander. Tremendo: a orquestra parece uma formação de percussão, o coração de um furacão. Todos os instrumentos fazem sons que nunca imaginei poderem fazer: como se fossem o fantasma deles mesmos. Prolongou-se por 10 minutos, rápidos, em que depois acordeão e trompa, um casal improvável, desenham um diálogo calmo, depois da tempestade. A peça é hard-hearing, um murro nos ouvidos, e por isso a perturbação absoluta.

Não preciso sequer de pensar, porque é se ouve o símbolo óbvio, que a trompa imperial norte-europeia, e o acordeão mediterrânico resumam e alargam a minha própria viagem.

Com música bebo os símbolos. Amanhã é o último dia.

Comentários

Patti disse…
Ah, aqui foi quando a mochila rebentou de vez?

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