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Cem anos, hoje: para umas presidenciais

É impressionante o paralelo: estamos hoje em alguns aspectos, à beira das presidenciais, como estávamos em 1910.

Há cem anos, Portugal estava dividido - e assim ficaria durante dezenas de anos. A República que se formaria a 5 de Outubro de 1910 representava uma ala progressista em termos de costumes, de educação, de visão do mundo. A Monarquia representaria o contrário - ou pelo menos, durante muito tempo assim se considerou. As divisões fracticidas da primeira república, que ditaram o seu fim a 28 de Maio de 1926 com um golpe militar direitoso (e nos anos seguintes, no "reviralho"), revelaram que esta divisão entre dois países, um católico e conservador, outro laico e progressista, não fixaram estes campos nos dois regimes. Pelo contrário. Na verdade, o que se passou no Estado Novo é a supressão desta ideia de país que se consubstanciou na primeira república. As várias oposições - do catolicismo progressista ao Partido Comunista, à "terceira via" que o PS de Mário Soares significou - herdaram um país pós-25 de Abril em que estes dois campos viveram um pouco submersos. Havia uma ideia de país a resgatar, pelo caminho dos 3 D.

Hoje, com a crise enorme (não só económica, não só identitária), os dois países voltam a confrontar-se: primeiro round, o aborto; segundo round, o casamento gay. Sócrates encostou bem Cavaco às cordas, levando-o a aprovar o casamento gay. Mas faltou a Cavaco o apoio da única base que num país conservador lhe poderia ser útil - e sem o qual o 25 de Abril teria decerto sido bem mais difícil: uma base múltipla, de criadores, empresários, homens e mulheres de todas as classes sociais e profissões, oriunda do catolicismo progressista. Como no 25 de Abril, as personalidades de "O Tempo e o Modo", o grupo da Capela do Rato, significaram. Não digo que esta base tenha de estar no poder: mas pela sua capacidade de representar e repensar o país, de ser a conciliação de opostos, pode gerar pensamento, reflexão e chão.

É precisamente desta ala do país que deveria sair um candidato presidencial. Que não tivesse o plano B de Manuel Alegre (unir Bloco, PS e PCP, numa agenda meritória mas que pode significar grandes problemas a Sócrates), e o vazio que neste momento significa Cavaco. Não houve um presidente mais vazio numa situação em que mais falta fazia um inteligente presidente (Vasco Pulido Valente fazia bem esse retrato na sua crónica no "Público" a 30 de Maio). E agora tem os conservadores a moverem-se para ter um candidato de direita, o que significaria a sua derrota. Isto se Cavaco não perdeu já.

Um terceiro candidato conservador era o seu fim, e uma provável vitória de Manuel Alegre. Mas um terceiro candidato desse campo católico-progressista teria a capacidade de unir e de repensar o país. Sem ele ou ela, os dois países vão combater-se, mas sem figuras que os representem. É esse o principal problema: o país vai eleger um presidente entre duas figuras que não polarizam as respectivas áreas. Por mim, voto Alegre, como já fiz, pela coerência e pelo menor dos males, mas com esta consciência.

Temos tempo, ainda. Não aparece mais ninguém? Não era preciso D. Sebastião: Marcelo Rebelo de Sousa ou Jorge Sampaio chegavam.


Comentários

Ana disse…
Eu gostava de acreditar que o catolicismo progressista ainda existe, ou então, para não ser de todo pessimista, que ainda tem influência. Isto porque me parece que cada vez mais as ideias e os debates na igreja se polarizam e "ou estamos com eles ou estamos contra eles". Falta teologia sobre humanismo e valores cristãos, sobra discurso de regras e rituais. Para além de D. Manuel Clemente, que já foi prémio Pessoa, há mais algum intelectual católico de relevo que gere consenso na nossa sociedade? Gostava mesmo de derramar alguma luz sobre isto... um abraço,

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