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"Eu sei atravessar as fronteiras das coisas"

Capitulo 9 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio
Fronteira Hungaro-Sérvia

Estamos parados ha dez minutos. O revisor veio-me acordar com o toque combinado e disse-me gravemente "passport control". Depois abriu todos os compartimentos do comboio, deixando-os escancarados. Num comboio parado mesmo do outro lado da linha, entrou um policia novo, vestido de fato-macaco azul que diz 'Rendorski - Polizei'. De lanterna na mao, abriu todos os compartimentos, todas as portas, revirou tudo. Deixei de o ver. Ouco passos. Entra pelo compartimento dentro um policia, dois metros de altura, enchapelado e apetrechado com uma maquina pesada a tiracolo, tipo detector de metais. Pelo cracha parecia o simbolo da Hungria. Mas seguem-se outros, que dizem 'Toll - Customs'. Pois é - estamos numa das fronteiras da Uniao Europeia, precisamente com a Sérvia. Que deve amar pouco a UE apesar de a desejar, ja que enquanto nao forem esclarecidas feridas da Guerra na Jugoslavia, é como no clube do Cascao, "menina nao entra".
O enchapelado despachou-me rapidamente, mas o 'Toll' nem por isso. Viu o passaporte contra a luz, voltou pagina a pagina. Estou diferente da fotografia, passaram seis anos, e agora tenho barba. Olhou duas, tres vezes. Pensei que os pelos novos me iam custar um reviranco de mochila, mas agradeceu e saiu. Atravessaram o comboio uma serie de outros, de maos vazias ou carregados de parafernalia. O comboio estacou. Pedi ao revisor para fumar um cigarro. Ja la iam sete horas desde o ultimo. Ele abriu a janela do corredor e disse "Here". Eu disse "outside". Ele disse que nao com a cabeca, e disse "Here" ainda mais alto. Nao é preciso falar a mesma lingua para se perceberem algumas coisas. Abriu a janela diante dele, a duas de distancia da minha, e também fumou. Tentei conversar, mas nada. Mais ninguém na carruagem, estou certo. O comboio a frente, deste lado, esta vazio e fechado, parece estar assim ha anos. O do lado esquerdo, do outro lado do meu comboio, foi todo revistado, e tem pessoas a janela a espera da policia. Ha um ambiente de filme de espionagem, mais, de contrabandistas. O barulhinho musical ao fundo é ja do lado sérvio, a dizer que vamos chegar la - é um ruido tipo 'ti-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra' de prémio de roleta russa, perdao, hungara. Este ruido é diferente do das estacoes hungaras, alias bastante gender correct, com um senhor e uma senhora a dizerem a mesma coisa, em hungaro, um depois do outro. Aqui é uma voz de homem, seca e neutra.
O comboio esta a entrar na Sérvia, avanca pela fronteira: vagos candeeiros, a lua cheia do lado direito, todas as estrelas, com quem fumei a minha noite transfigurada num portugues suave.


Ainda nao vos falei do meu grande companheiro de viagem. Nao foi alguém preciso, porque no tipo de viagens longas que fiz, e a noite, so viajei em wagons-lits, com a sorte ou o preco de viajar sozinho. Mas além da Odisseia e de Mr. Norwich, estava um mapa da EU Rail que me deu o herr Christian Felix - de inolvidavel conhecimento férreo - em que fui seguindo a viagem. Pois as proporcoes de escala, e os calculos de horas que la estavam colocados, mesmo com erro, estavam todos mal. Pois o meu mapa, tudo o que como marinheiro de carris tinha para me guiar, dizia que de Belgrado a Sofia eram 8 horas. Estava desde ja tudo errado. E as minhas contas para apanhar comboios a apertarem-se. Também dizia que a proxima paragem era Sumbotica, daqui a meio centimetro de mapa, aproximadamente.
Vou dormir, penso. Deito-me e caio no sono.


Penso que o que me faz tao livre aqui é saber que nao controlo o meu destino. Que estou nas maos dos carris, dos revisores, dos policias, mas para além de tudo isso, de uma forca maior. Eu ja acreditava nisso, eu ja sabia isso, eu compreendia isso numa visao da vida em vista aérea. Mas eu nao tinha vivido isso.
O verso que da titulo a este capitulo é de Mario Cesariny. Fiquei fascinado por ele desde que apanhei um certo eléctrico para o Castelo, numa tarde de Janeiro de 1997. Era sabado, e a vida toda por acontecer rebentava-me o corpo, a vida toda por acontecer ia acontecer aqui, agora, ja. Pois o verso hoje, num comboio entre alhures e nenhures, rasgou-se como uma casa no sangue.
Nao depender de nada, e saber que neste momento nada depende de mim, deu-me uma sensacao de paz enorme. Tudo pode acontecer a um ser humano em qualquer ponto da Terra, mas a um ser humano anonimo aqui, desapossado de tudo, podem acontecer mais rapidas coisas. Sei isso, mas nem por um momento me perturbou. Apenas uma paz enorme, como as asas dos anjos bizantinos - debruadas a ouro e limitadas pelo perigo.

De repente, um estrondo. Entram pelo comboio com botas pesadas. Varios, muitos. Falam alto e grave com o revisor.
Chegamos a Servia.

Comentários

Rita disse…
essa paz que sentes é maravilhosa e contagiante! e vejo bem o teu sorriso de gratidão estendido ao revisor.
questões práticas: onde tens conseguido escrever e publicar os posts? o teu blog é um autêntico "Diário-GPS".
Isto é muito bonito como literatura, mas muito preocupante como realidade...
Precisava de me sentir assim urgentemente. Mas já que não posso, pelo menos o que escreves e vives neste momento faz-me ter esperança de que um dia também eu poderei atravessar as fronteiras das coisas. Beijos de saudades
Susana

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