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sabedoria respirada


Capítulo 14 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio

Istambul, dia 1, parte 2


Era uma vez um homem soterrado por uma catedral.

Sentia cada arco em cada membro do corpo, cada respiração do som a atravessar o tempo, cada minuto do mundo. Estava tão perto de Deus que podia sentir a sua pele.
Os pensamentos, as ideias, deixaram de aparecer na sua cabeça. A grande tela do mundo era uma luz branca, coada por milhares de respirações. Tudo se via claro. «Agora vemos como num espelho, mas depois veremos face a face». O tempo era um único, reunido, sem divisões, integral no peito, corrente como água antiga e nova. E então o homem, que não sabe se há-de andar ou de estar parado, porque é apenas essa clareza absurda, uma clareza que dói de tanto conhecimento nítido, senta-se nos degraus de Hagia Sophia e chora por dentro a escrever:

«A única coisa que venho fazer a este mundo é recuperar sabedoria - o que perdi na passagem para este corpo. Que esse é o caminho de luz da alma, reaprender o que perdeu na passagem para aqui, e com isso elevar-se, e este mundo com ela, e o anterior também (o anterior não precisa de ser subido, precisa apenas de comunicar-se).
Recuperar sabedoria. A ideia de sofrer e trazer luz, inspirar e respirar, é devastadoramente clara, é uma bomba de claridade. Vivê-la, corporizá-la. Não foi isso que fizeram Cristo e Buda? Viajar sabedoria.»

O homem bebeu a água que saiu das palavras e seguiu em frente. Naquela catedral estava o centro do universo, o omphalon. O Pedro tinha-lhe dito que omphalon queria dizer umbigo. Neste lugar, um círculo devorante no chão, eram coroados os Imperadores Bizantinos. Procurou o umbigo, entre a confusão dos visitantes, dezenas de línguas, e andaimes. Não achou. Perguntou aos seguranças, aos guardas, aos guias. Ninguém sabia onde era. Ao fundo, uma placa quase escondida por taipais, aparecia "Omphalon". Não se podia cair no centro, estava rodeado por fitas. Mas aproximou-se dele, e fechando os olhos, entrou no umbigo do tempo.

O homem não sabia o que fazer depois. Estava soterrado de beleza, de sabedoria. Seria aquilo o fim? Reunia tantas coisas no seu corpo que a cabeça lhe doía, precisamente a meio dos olhos. Se em algum momento pudesse sentir que estava pronto para morrer, era agora. Estava reunido.

Almoçou porque tinha de ser. Entrou na Cisterna de Justiniano e viu que as águas inferiores e as águas superiores são apenas uma - os seres humanos também são água, misturada com terra, que ficam entre as duas águas. A pedra é o intervalo do tempo.

Depois quis procurar São Sérgio e São Baco, uma das Igrejas mais antigas. Era agora uma mesquita. Ficava para lá da muralha, para além da mesquita azul. Atravessou o Hipódromo, uma alameda de árvores e arcos bizantinos. Jogou o seu destino por ruas cruzadas. Ao fundo, a mesquita impunha-se, no seu teclado de telhas bizantinas. Ali a cruz e o crescente navegavam juntas. Sentado num banco, um senhor francês cruzava os braços emocionado. Os dois homens encontraram-se à saída, calçando os sapatos, e o francês não foi capaz de aguentar, e disse ao homem num suspiro: «C'est la plus belle chose que j'ai vu dans ma vie». E o homem esmagado sentiu que ali estava, naquela reacção e naquela língua, a sua querida amiga francesa, que sabe fazer-se presente nas circustâncias mais inesperadas.

Mas o homem estava guardado para um esmagamento final. As ruínas do grande palácio imperial, ali ao perto. Desceu sentindo os pés a compreenderem o chão.


continua









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