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«Vai, vai, vai»

Capítulo 13 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio
Istambul, dia 1, parte 1

Estação de Sirkeci: o taxista mal-encarado, de bigode farto, levou-me até ao Hotel. A meio caminho, no meio da confusão do trânsito, das pessoas, das cores e dos barulhos, liga o rádio e atira-se sobre o cenário uma música turca, com o refrão com qualquer coisa que se assemelhava a "Vai, vai, vai". Não podia haver melhor maneira de celebrar o objectivo cumprido.
Tomo o pequeno-almoço no hotel (cortesia da rapariga turca da recepção, que também me deixou usar o computador para actualizar o blogue), com o Bósforo por todos os lados, e a cidade a irromper pelas janelas inteiras. Fui logo tomar um banho, mas o coração parecia não caber no peito, de ansiedade do percurso. Desci a Sultanhamet, espantado pela quantidade de lojas e pessoas a venderem tudo. E cheguei ao pátio das mesquitas: diante de mim, a Hagia Sophia, por trás a Mesquita Azul.
E de repente, o tempo suspendeu-se. As pessoas pareciam envolvidas num bailado distante, os ruídos eram música de fundo, e o grande corpo da Hagia Sophia, mediada por andaimes e árvores, estava diante de mim, inalterável e imensa. Quis gravar este momento para sempre, o seu peso perfeito, natural intenso, cortante. E então o caderno azul aparece, e a linguagem antiga de mim com o improferível surge. Um poema, a voz do que eu não consigo dizer. E outro, e outro.
Passo anos sem escrever um verso - ou a escrevê-los para o lixo. Mas quando alguma coisa me convoca, eu escrevo torrencialmente. Foi assim a partir daqui em Istambul, que fez em mim um novo livro de poemas.
Os poemas, água, um cigarro turco acabado de comprar. Agora tinha de entrar na Hagia Sophia. Mas eu não queria: queria prolongar aquele momento, repeti-lo vezes sem conta. O travo do quase, o toque do vai acontecer, como o primeiro beijo de um amor, a primeira vez que os corpos se perdem. Queria repetir isso, essa tensão que limpa todas as imperfeições do mundo.
Mas acabo por entrar, para alguma coisa que nunca pensei poder acontecer-me: acabo de entrar na Hagia Sophia para o meu absoluto esmagamento.

(continua)

Comentários

Patti disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Patti disse…
E uma foto da Hagia ao pôr-do-sol, não se arranja?

Preenche todos os cadernos azuis que conseguires...
HEHEHE, eu fui testemunha disto quase in loco!:P

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