Avançar para o conteúdo principal

The Constantine Connection


Capítulo 10 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio

Fronteira Sérvia - Sófia

Aqui na Sérvia as revistas foram mais sérias. Perguntas, passaporte visto várias vezes e de vários ângulos, perguntas. Sobretudo se tinha trazido cigarros portugueses, e muitos. O meu maço quase vazio respondia por mim. Uma hora de paragem para revistas - por isso se atrasam os comboios. Depois da última revista, o meu corpo decidiu estar farto e dormi, comboio parado, comboio a andar. Sono tranquilo. Acordei as 7h, e depois às 9h. Quando abro a porta, o meu amigo revisor já fumava com o comboio em andamento.
- Belgrade?
- Ufff...
Já tinha sido há muito.
- Coffee?
- No.
Este não tinha café. Ia ser um dia inteiro sem uma gota de café. Eu racionava a água, o pão e a fruta trazidos de Berlim, mas café não tinha imaginado. Um daqueles termos que se vendem no Starbucks, Pedro, porque não te lembraste, resmungava comigo. Estava feito. Durante as próximas oito horas, até Sófia, só me restavam 3 fatias de pão, 2 pacotes de duas bolachas cada, 1 banana, 0,5 l de água. Tinham de chegar até as 17h30. Mas eu não tinha fome: tinha perdido a noção do tempo, dos dias, dos espaços, e dos hábitos do corpo. Tudo estava a ser reprogramado dentro da minha cabeça, e o meu corpo, sintonizado, respondia.


Passámos pela estação de Lapovo. Carros velhos, casas baixas, materiais ferroviários espalhados pelo chão. Preparo o saco de roupa para o lixo, boxers, meias, a t-shirt: além desta homenagem ao Francisco, o espírito desta viagem deste modo é inspirada nas épicas e muito mais sofisticadas na sua radicalidade do meu amigo Pedro Barros, aqui do blogue ao lado, Prehistorias.
Claro que fiz este percurso a ouvir a Sétima Sinfonia, a Leninegrado, de Shostakovich. Música que falava de um fim que agora tem aqui a sua outra margem.
E começo a pensar que a viagem está a chegar ao fim. Já estou com pena disso e planos para outras, muitas outras.
Chegamos a Niš. É aqui que decido acordar de escritas, músicas e leituras, e ver o que se passa no mundo. Na altura não percebi porque fiz isso, mas umas horas depois, ao ler Byzantium, assombro-me. Foi em Niš que nasceu Constantino, o inventor de Bizâncio. A cidade já existia, ele escolheu-a para capital do Império Romano do Oriente, e alargou-a em absoluto. Porque é que acordei aqui e não noutro sítio das seis paragens na Sérvia? Porque nas viagens encontramos o que não procuramos, somos achados pelos lugares e pelas suas naturezas múltiplas, pelos espaços do tempo fora do tempo.
Mais umas horas, Dmitrovgrad. Há duas: uma na Sérvia, outra na Bulgária. A estação é organizada e bonita (em comparação, claro). Nova revista, esta mais civilizada. Acabou mesmo por me dizer, o guarda, «Welcome to Serbia, and Goodbye from Serbia». Mais um tempo e entramos na Bulgária.
Novos dois polícias, agora, um com um portátil, outro com um leitor de bandas magnéticas à cintura, faziam um par cómico. O do computador batia com o écran em toda a parte, o outro tentava soletrar o meu nome completamente errado. O bucha e o estica, já se percebe que estão na UE, pela atitude e pelo uniforme.
Saíram, o comboio rolou. A hora muda em Sófia, e vamos chegar atrasados. Terei 25 minutos para reservar a carruagem para Istambul hoje ou amanhã. E não sei porquê acho que é hoje que vou.
O comboio parou. Sófia. Falta apenas uma, apenas uma paragem, e mais 8 horas de comboio.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…