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Blachernae

Capítulo 16 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio


Perdido em Stambul: porque procuro Bizâncio, Blachernae em Stambul. Dou voltas e voltas, todos os mapas me parecem de outra cidade. Senta-te, Pedro, passaram seiscentos anos, tudo mudou. Os barcos do meu coração são diferentes dos que estão nos meus olhos. Entro num gabinete de apoio ao turista. Fechado. Mas o polícia aponta-me uma loja, onde um velho senhor com um inglês perfeito me ajuda a encontrar o caminho para onde quero ir: é do outro lado, «take bus, it’s very far». Pergunta-me na despedida se tenho a certeza de que quero ir lá. Digo-lhe com um sorriso que é por isso que vim. Ele sorri como resposta e guarda para si o que ia dizer. Parece que a Ásia não quer nada comigo. Pego em mim e através desta ponte, a Galatha Bridge, atravesso pelo ponto mais breve entre a Ásia e a Europa. À chegada, uma paragem onde parecem partir autocarros para o universo inteiro.
Lá um revisor que não é turco ajuda-me a apanhar um autocarro que me deixa mais ou menos onde espero. Um adolescente ao meu lado, parvificado com os guias e os mapas que ocupam o meu assento e o do lado, responde-me com sono que devo sair ali. Enganou-se. Muralhas, sim, muralhas em todo o lado.
Há uma pequena rua entre dois restos de muralha. Teria existido antes da muralha? Os meus velhos mapas confirmam. Mas é meio dia e preciso de um café. Entro no café mais típico e estranho de um bairro apertado e sem pessoas. Logo um senhor falador me recebe, e me diz que devo ir em frente, sempre em frente pela mesma rua, «and don’t look back». Penso que é uma piada e rio-me. Velhos senhores jogam no tabuleiro, Ataturk está pendurado nas paredes todas. Chega o dono, peço-lhe um café, senta-me no melhor lugar, nuns canapés que são do tempo do fundador da República Turca: as fotografias ampliadas e as mesas doentes confirmam-no.
Bebo um café turco fortíssimo e percebo porque servem sempre água ao lado: as borras do café ficam a navegar na boca (e no estômago) com uma sensação de restos perdidos. Volto a confirmar o percurso: é sempre em frente. Mas o dono, enquanto lhe pago, sussurra-me «It’s very dangerous, don’t go there». Achei exagero.


Na saída, passo pela casa de banho, onde há uma janela que tem vista para a muralha. Tudo foi construído por cima das muralhas de Bizâncio – e não tão antigamente como se possa pensar.
Subo a rua, o passo apressado. Não encontro. Num largo, uns rapazes estão numa espécie de oficina a fazer qualquer coisa a um carro. Dizem-me que não é para a frente, é para cima. Ninguém sabe onde fica Blachernae, nem com o nome turco nem com o nome bizantino. Penso que é melhor apanhar o autocarro e sair mais à frente.
Desço a rua, passo pelo café, e parece-me ver qualquer coisa inesperada à frente. Uma espécie de igreja, tapada por uns portões negros. É o patriarcado de Istambul, o mais importante (com Moscovo) da Igreja Ortodoxa. Os portões e a ausência de símbolos religiosos foram uma das obrigações republicanas turcas.
Lá dentro, um ícone de nossa senhora está a ser decorado por três homens muito velhos, cheio de cravos brancos à volta. A Igreja não é grande, mas no meio está o trono do patriarca, que veio da Hagia Sophia. Faço o exercício de imaginação de colocar a cadeira no seu lugar, enquanto me despeço e procuro encontrar a estrada perdida.
Volto à procura do autocarro. Mas nem o polícia que está por ali, nem dois velhotes turcos, me sabem dizer onde é. Farto-me e chamo um táxi. Dou-lhe a direcção, ele não sabe, pára e pergunta, pára e pergunta.
As ruas apertam-se, as marcas do tempo desaparecem. O carro não consegue passar por todo o lado. Entre o início de um bairro de lata, vejo ao fundo: as torres de Blachernae. Mas não podemos passar: uma mulher ocupou o resto da estrada para lavar um tapete enorme. A casa é uma barraca, uma das muitas de restos de madeira e zinco construídas em cima das muralhas de Blachernae; a casa dela é o tapete, a única coisa que lhe dá um chão firme.
À volta, homens sentados às portas. Um deles tem uma arma. Peço ao taxista que espere por mim. Subo e desço restos de muralhas, fotografo como posso, o que posso. «O meu coração é um pórtico partido», dizia Pessoa, e nada mais se ajusta: ruínas enormes de um palácio-fortaleza a dar para o Bósforo, ocupadas. Páro mas o ambiente à volta é estranho. Podia subir e ver o Bósforo de cima da torre, ver o Corno de Ouro – a linha estreita entre as duas margens que fazia Bizâncio praticamente inexpugnável. O taxista apita, a mulher berra, e as pessoas sentadas levantam-se e dão por mim em equilibrismos emocionados.
Entro para o carro, os olhos pregados nas torres de Blachernae. No pórtico de entrada do Imperador, uma mulher continuou a lavar os tapetes.

Comentários

Castor disse…
Os tapetes tecem histórias
na densidade de nós entrelaçados.
Vejo índigo, garança e açafrão.
Sonho com um kilim voador
que me leve para lá desta trama.
Patti disse…
Os mistérios dos lugares sagrados...

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