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Berlim regressa-me

Capítulo 19 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio


Berlim e o seu abraço inquieto. É a relação entre amantes antigos mas ocasionais. Berlim-amante. Reinventamo-nos, sobretudo ao corpo um do outro. Com Lisboa caso, com Berlim a traio. Repetidas, breves e intensas facadas no casamento. Será isso que nos espera aos dois, Berlim e eu?

Martin-Gropius Museum, com os meus amigos Dan e Lina. Tudo vai ver a exposição de Frida Kahlo, nós escapulimo-nos pela fila inexistente para a Arte Islâmica.
Coxeio até à sala 2; e neste processo de compreensão lenta a que o corpo me convida, encontro três triângulos islâmicos de um tecto, do século XVI: como o fez Darius Waerminger, personagem do 333. Berlim amante, reinventamo-nos? Se esta cidade fosse uma mulher, fazíamos uma tribo.

Discutimos depois se as amizades entre duas mulheres e dois homens são diferentes (o Word acabou de criar uma nota de rodapé – aqui até o meu computador funciona mais depressa e em pensamento múltiplo). Teorizamos e discutimos, acabamos com um doppel espresso machiatto a pensar no café de Viena a que temos de ir os três quando tivermos 66 anos.
Deixo-os, vou para um bar escrever. Uma rapariga de cem quilos está a minha frente, a ler History after Lacan e a comer um bolo de creme com a mesma precisão das minhas saudades de Bizâncio e o meu desejo por Berlim. Penso nas personagens da Patti. Sorrio-lhe agradecendo. Ficamos amigos de olhos, coisa rápida mas intensa e repetida em Berlim – amanhã vamos reencontrar-nos, Berlin rules. A Maria João, amiga de tanto, aqui do blogue ao lado Uma Casa no Tempo, sabe bem que é assim.

À minha frente uma alemã quarentona lê o «Suddeutsche Zeitung» e bebe três cervejas de meio litro. O seu iphone não lhe traz as notícias que espera. Deixo cair os meus cigarros turcos e ela apanha-os. Chamo depois o empregado no meu inglês arranhado para pedir uma Krombacher mas ele não ouve: é o «Entschuldigung» dela que o chama. Sorrimo-nos. Trocamos umas palavras de mesa para mesa.
- You’re definitevely a writer.
- You’re definitevely a reader.
Seis segundos de olhos.
- All those notebooks?
Aponta para os meus cadernos de viagem, espalhados pela mesa com maços de cigarros.
Conto-lhe a viagem, por alto. Ao lado, um alemão trintão-puxadão, barba rala branca, sorri também. Está a ouvir, eu olho, liga-se na conversa. Outro triângulo. Se Berlim fosse um deserto, fazíamos uma religião.
A empregada do turno das oito entra e pago, e quer-me trazer outra cerveja. A alemã e o alemão oferecem-me a próxima cerveja, sorriem, pagam-me a dividir. Convido-os para a mesa. Olham um para o outro, desempato:
- I’m portuguese, you know. We’re talking with the hole world since the 15th century.
Não correu bem. Ficam no mesmo lugar, continuam a falar comigo. Ela é professora, ele é «muitas coisas». Ele foi a Portugal, ela não, mas gosta do que ouve.
- The financial problems? – pergunto eu, ela sorri.
- No, the people and the food.
Ela recebe uma chamada. Tem um ar de quem espera que lhe aconteça sempre o hoje inteiro. Olha-me, sorri outra vez. Tem um brilho baço azul nos olhos.
- We will meet again. Berlim does me that all the time.
Ela ouve e sai.
Ele fica sem saber o que fazer, sorri também, falamos de como Berlim permite tudo. Ele diz que essa é história dele com a cidade. Liga-me uma outra amiga de Berlim, jantar e catch-up: tenho um projecto, uma mudança de vida para lhe contar. A viagem trouxe-me.
- What do you write?
Digo-lhe que estou a escrever um romance bizantino (bem, no século XVII isto era outra coisa…), mas que não escrevi uma linha. Só poemas. Outra cidade que me faz escrever poemas. Falam de quê, pergunta. De como ficam nas coisas coisas que não morrem.
- That’s a perfect way to finish a conversation.
Ele sai, Berlin rules, we will meet again, disse-me ele, talqualmente. Sai e encontra a amiga à porta. É grega, trocam palavras, ele aponta para dentro, sorriem os dois. Falam alemão depressa. A rapariga entra, vem conhecer o escritor da viagem doida, garantindo-me entre sorrisos que os seus antepassados são de certeza bizantinos. No bar, desaparece o soft blues e começa a tocar Bruce Springsteen, “Living Proof”.
O Universo é perfeito.

Comentários

Patti disse…
Primeiro, gostei logo do teu casamento e de seguida do teu adultério.

Segundo, mal li aquele bolo com creme, trincado por uma boca escancarada que alimenta um corpinho roliço de cem quilos, disse de imediato "Olha, o Pedro está com a minha Branquinha!"

Terceiro, o Fredizinho mal leu isto, deu-lhe a travadinha. Estou a escrever este comment vinda agorinha mesmo da visita à ala de psiquiatria do S. José.

E Quarto, ai tantas personagens Pedro!
Que riqueza. Não admira trazeres a mochila cheia!

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