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A mostrar mensagens de Maio, 2010

Cem anos, hoje: para umas presidenciais

É impressionante o paralelo: estamos hoje em alguns aspectos, à beira das presidenciais, como estávamos em 1910.
Há cem anos, Portugal estava dividido - e assim ficaria durante dezenas de anos. A República que se formaria a 5 de Outubro de 1910 representava uma ala progressista em termos de costumes, de educação, de visão do mundo. A Monarquia representaria o contrário - ou pelo menos, durante muito tempo assim se considerou. As divisões fracticidas da primeira república, que ditaram o seu fim a 28 de Maio de 1926 com um golpe militar direitoso (e nos anos seguintes, no "reviralho"), revelaram que esta divisão entre dois países, um católico e conservador, outro laico e progressista, não fixaram estes campos nos dois regimes. Pelo contrário. Na verdade, o que se passou no Estado Novo é a supressão desta ideia de país que se consubstanciou na primeira república. As várias oposições - do catolicismo progressista ao Partido Comunista, à "terceira via" que o PS de Mário …

No lançamento de material angústia, parte II

Segunda parte do texto lido no lançamento do livro material angústia, com cortes e selecções

A poesia tinha começado bem antes, é verdade. Aos doze anos, escrevi uma História de Portugal em quadras, para um concurso da junta de freguesia - que naturalmente perdi. Só o ano passado, com o romance 333, percebi que a paixão pela História que me alimenta desde que sei ler, se ia cumprir nesta imaginação histórica que é a minha mão direita.

O que quero dizer é que a voz de um homem que sabe que a que tem não lhe pertence, só pode ficar alterada na raiz e no fim com a vida que não morre. Dizer, revelar o que não morre no que morre. Que uma ruína é um incêndio de sentido, uma estátua um ser vivo que sustém o tempo, uma cidade submersa noutra o espelho da nossa condição.
Depois das quadras históricas, seguiram-se muitos poemas, que queimava no quintal de casa em cada verão. Aos 15 escrevia poesia religiosa, como as freiras seiscentistas que investigo, intoxicado pela minha paixão sobrenatural que…

No lançamento de material angústia

Segue aqui, a pedido, o texto lido no lançamento de material angústia. É um pouco longo, irá em duas partes, e com alguns cortes.

Pensei bastante se este dia e esta ocasião me permitiriam falar um pouco mais do que o previsto: gosto de lançamentos breves, perturbadores na intensidade de que recordamos depois o brilho e a justeza, tal como como de livros de poesia breves, a que regressamos sempre – imitam a vida, em que um momento concentrado nos leva dias de cabeça a percorrer e a desembrulhar.
Considerei então que dez anos me permitiriam dez minutos, e é isso que farei.
Começo pelo fim, pelos agradecimentos. Ao Director e a toda a equipa da Casa Museu, que nos recebeu de novo. Ao José Rui Teixeira, ao Jorge Melícias e ao João Ribeiro, editores da Cosmorama, que entre as dificuldades que a crise levanta, aceitaram fazer este livro. E sobretudo a cada uma das pessoas que aqui está hoje, fazendo sacrifícios, mudando a sua vida, neste gesto de amizade. Sempre que nos reunimos em torno de al…

Lançamento de material angústia

Em 2010 os meus poemas fazem dez anos, ou eu faço dez anos de poemas, ou os poemas querem fazer dez anos comigo - tudo isto ou apenas parte, ou o que existe para lá de tudo isto. Para o celebrar, um volume que selecciona 33 poemas destes dez anos, editado pela Cosmorama, com o título material angústia. Tem posfácio de Ludovic Heyraud, amigo deste blogue e professor em Montpellier, e é lançado no dia 26 de Maio, Quarta-feira, às 19h, na Casa Museu Anastácio Gonçalves, na Av. 5 de Outubro.
A extraordinária fotografia da capa é da autoria de Margarida Chambel - a quem agradeço.
A sessão é um pouco diferente: pedi a cinco amigos que lessem dois poemas cada um dos cinco livros editados (constelação dos antípodas, 2000; as flores do sono, 2002; biofagia, 2003; deste lado da morte ninguém responde, 2005, zona de perda - livro de albas, 2006) e dos inéditos. Os amigos são Estela Baptista Costa, Pedro Ladeira Barros, Alexandre Nave, Cláudia Chéu e Mariana Alvim. O lançamento é aberto a todos os qu…

never ending trip

Capítulo 21 da viagem Berlim-Istambul de comboio
Faz hoje precisamente um mês que em Berlim Hauptbahnhof comprei o bilhete de ida para Istambul.
Ao escrever o último post da viagem, não posso deixar me sentar à margem da viagem, e vê-la correr. A notícia, única, é que cada vez mais parece interior, cada vez mais parece uma parte de mim muito grande e profunda que não está afastada de mim. Que vive aqui para sempre. O percurso misturou-se na voz, gravou-se no ritmo do corpo. Nunca mais se regressa das paisagens feitas no corpo, vividas na solidão cósmica dos sonhos antigos cumpridos.
Todas as coisas foram encontros. Por isso, nunca mais quero deixar de viajar assim. Ao chegar ao terminal do aeroporto de Berlin-Tegel, à porta mesmo de onde o avião partiria, estava esta carruagem de metro berlinense, como a dizer: os encontros de cidades desconhecidas nunca mais te abandonarão. Por isso, assim de todos os lados do corpo, de todas as janelas de alma, eu te convoco, viagem.
Ruínas de Blache…

E ao terceiro dia, acordou

Capítulo 20 da viagem da minha vida, Berlim-Istambul de comboio


Três dias em Berlim, para voltar do ritmo do comboio; e não só: do desligar absoluto de qualquer coisa que fosse a minha vida. Nunca mais serei capaz de viver sem fazer viagens assim. Em que se é o interior profundo a ser o corpo, olhos e pés - o sentido da nossa história a viajar. Como se se apagasse o eu quotidiano, e só vivesse uma parte do eu que está no princípio e no fim da vida e da história.
O penúltimo dia foi passado num dos paraísos na terra: a Dussmann, que tem uma loja de música clássica do tamanho de todo o piso inferior da FNAC Chiado. Podemos pegar no CD que queremos ouvir (eu levo sempre uma pilha enorme), eles abrem, e ouvimo-lo directamente. Passo manhãs inteiras aqui; e a vez em que o meu pai veio comigo, parecia uma criança de dezoito anos que tinha acabado de receber a mesada.
Depois, um concerto na Philarmonie. Não é a Berliner Philarmoniker (a maior orquestra do mundo, a de Furtwängler), mas uma da…

Berlim regressa-me

Capítulo 19 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio


Berlim e o seu abraço inquieto. É a relação entre amantes antigos mas ocasionais. Berlim-amante. Reinventamo-nos, sobretudo ao corpo um do outro. Com Lisboa caso, com Berlim a traio. Repetidas, breves e intensas facadas no casamento. Será isso que nos espera aos dois, Berlim e eu?

Martin-Gropius Museum, com os meus amigos Dan e Lina. Tudo vai ver a exposição de Frida Kahlo, nós escapulimo-nos pela fila inexistente para a Arte Islâmica.
Coxeio até à sala 2; e neste processo de compreensão lenta a que o corpo me convida, encontro três triângulos islâmicos de um tecto, do século XVI: como o fez Darius Waerminger, personagem do 333. Berlim amante, reinventamo-nos? Se esta cidade fosse uma mulher, fazíamos uma tribo.

Discutimos depois se as amizades entre duas mulheres e dois homens são diferentes (o Word acabou de criar uma nota de rodapé – aqui até o meu computador funciona mais depressa e em pensamento múltiplo). Teorizamos…

o adeus progressivo

Capítulo 18 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio


Cinco da manhã em Istambul, não vejo o sol, não vejo o mar. Uma mochila que veio quase vazia e que está cheia, acompanhada de sacos que se multiplicaram. Para onde se transportarão as coisas que transportamos? Qual será o destino de cada um destes objectos, pergunto, banhados pela viagem, por um sentido próprio. Vai-se perder na noite dos tempos, na minha noite dos tempos? A manhã que se rasga lá fora diz-me que não.
Tive uma noite agitada, cheia de sonhos, de desastres. Acabo de ler que os muhezzins que me acordaram e acompanharam vão ter formação: para melhorarem o seu canto de chamada à oração. Um curso de entoação criativa, portanto. Penso nesta ideia maravilhosa, deste Islão que tem vozes humanas a ecoarem para outras, em vez do metal dos sinos. É uma espécie de poesia dos ouvidos místicos. Tomo um pequeno almoço antes de o restaurante abrir. Roubo o último sol nas janelas sobre o Bósforo, e procuro-o com máquina de …

A eternidade torceu-me o pé

Capítulo 17 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio






Perturbado ainda pelo presente ruinoso do palácio de Blachernae, peço ao taxista para me deixar na igreja de Santa Theodora, mais à frente. O meu guia de viajante romântico por ruínas diz-me que a igreja está muito bem conservada, e que agora é a "Rose Mosque", a Mesquita das Rosas. Almoço praticamente o diário que escrevo, e sigo pelas ruas - a cúpula orienta-me. Encontro a fachada, encontro a placa, muito explicativa do pós-conquista, mas sem uma referência ao seu passado bizantino. Esta é das melhores e mais antigas igrejas. Ao lado da porta, há uma entrada por escadas com uma campaínha, mas há roupa pendurada. Parece a porta de uma casa. Dou voltas e voltas, não encontro. Contorno o edifício. Faz calor e miúdos jogam à bola: há um Mohammed que não passa a bola ao Abdullah, que grita o nome do primeiro como se fosse morrer amanhã. Desisto e continuo a descer. Mais à frente, crianças de seis, sete anos põem-se …

Blachernae

Capítulo 16 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio


Perdido em Stambul: porque procuro Bizâncio, Blachernae em Stambul. Dou voltas e voltas, todos os mapas me parecem de outra cidade. Senta-te, Pedro, passaram seiscentos anos, tudo mudou. Os barcos do meu coração são diferentes dos que estão nos meus olhos. Entro num gabinete de apoio ao turista. Fechado. Mas o polícia aponta-me uma loja, onde um velho senhor com um inglês perfeito me ajuda a encontrar o caminho para onde quero ir: é do outro lado, «take bus, it’s very far». Pergunta-me na despedida se tenho a certeza de que quero ir lá. Digo-lhe com um sorriso que é por isso que vim. Ele sorri como resposta e guarda para si o que ia dizer. Parece que a Ásia não quer nada comigo. Pego em mim e através desta ponte, a Galatha Bridge, atravesso pelo ponto mais breve entre a Ásia e a Europa. À chegada, uma paragem onde parecem partir autocarros para o universo inteiro.
Lá um revisor que não é turco ajuda-me a apanhar um autocarr…

Uma cidade do outro lado dos olhos

Capítulo 15 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio

O Grande Bazar: um fio confuso de cores, ruídos, lojas. Lembrou-me os souks em Israel, quando tinha quinze anos e muitas coisas por detrás do olhar.
Não se pode passear sem que alguém nos pergunte, alguém nos abalroe, ou uma confusão de grupos espanhóis ou japoneses choque contra o olhar aberto. Procuro uma coisa, sou logo puxado por alguém, sou logo levado para dentro de uma loja. E depois de uma conversa a regatear preços, sou logo bem enganado.
Quero sair daqui, mas fiz mal as contas da roupa a trazer na mochila pequena e esburacada. Falta-me uma t-shirt. Encontrar alguma coisa que não diga «Istambul», «Turkey» ou seja boa imitação é difícil. Lá passo de boca em boca, e alguém me leva a um homem sério, que me pede um preço razoável. Guardo as coisas no saco e vou para o Hotel, com o sol a pôr-se sobre este dia enorme sobre a avenida Sultanahmet entrecruzada por vendedores de tudo.
Cansado, depois do dia imenso, decido faze…

sabedoria respirada

Capítulo 14 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio

Istambul, dia 1, parte 2

Era uma vez um homem soterrado por uma catedral.
Sentia cada arco em cada membro do corpo, cada respiração do som a atravessar o tempo, cada minuto do mundo. Estava tão perto de Deus que podia sentir a sua pele.
Os pensamentos, as ideias, deixaram de aparecer na sua cabeça. A grande tela do mundo era uma luz branca, coada por milhares de respirações. Tudo se via claro. «Agora vemos como num espelho, mas depois veremos face a face». O tempo era um único, reunido, sem divisões, integral no peito, corrente como água antiga e nova. E então o homem, que não sabe se há-de andar ou de estar parado, porque é apenas essa clareza absurda, uma clareza que dói de tanto conhecimento nítido, senta-se nos degraus de Hagia Sophia e chora por dentro a escrever:
«A única coisa que venho fazer a este mundo é recuperar sabedoria - o que perdi na passagem para este corpo. Que esse é o caminho de luz da alma, reaprender o q…

«Vai, vai, vai»

Capítulo 13 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio
Istambul, dia 1, parte 1
Estação de Sirkeci: o taxista mal-encarado, de bigode farto, levou-me até ao Hotel. A meio caminho, no meio da confusão do trânsito, das pessoas, das cores e dos barulhos, liga o rádio e atira-se sobre o cenário uma música turca, com o refrão com qualquer coisa que se assemelhava a "Vai, vai, vai". Não podia haver melhor maneira de celebrar o objectivo cumprido.Tomo o pequeno-almoço no hotel (cortesia da rapariga turca da recepção, que também me deixou usar o computador para actualizar o blogue), com o Bósforo por todos os lados, e a cidade a irromper pelas janelas inteiras. Fui logo tomar um banho, mas o coração parecia não caber no peito, de ansiedade do percurso. Desci a Sultanhamet, espantado pela quantidade de lojas e pessoas a venderem tudo. E cheguei ao pátio das mesquitas: diante de mim, a Hagia Sophia, por trás a Mesquita Azul.
E de repente, o tempo suspendeu-se. As pessoas parecia…

«Ítaca deu-te essa viagem»: chegada a Istambul

Capítulo 12 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio


«Passport control», disse-me com voz sussurrada da uma e meia da manhã a revisora. Acordou-me. Entrou logo um senhor, que percebi que era ainda búlgaro, que me viu o passaporte sorridentemente. Desliguei a luz e adormeci outra vez. Não por muito tempo. «You have to go out to police». Pensei que era só eu, que havia qualquer problema. Saio, levando a mochila por precaução, e deixando este caderno e os livros deitando-lhe um último olhar injusticado.

Não era só eu que tinha de sair: éramos todos. Todo o comboio saiu pela noite fora. Vi um conjunto de casas, e decidida e definitiva, uma bandeira turca flamejando contra as sombras da noite. Faz muito frio, talvez 2, 3 graus. Não falta aqui o "Tax Free", cheio de gente, mas há mais gente ao lado, no departamento de polícia. Fico numa fila com vinte pessoas antes de mim, atrás da revisora, que olha para baixo não dizendo palavra. O guarda turco atrás das janelas com gra…

A mãe, a leoa, Portugal 1974 e o último comboio

Capítulo 11 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio

Sófia-fronteira turca



Estou já sentado no comboio para Sófia, a comer uma sandes de paio com pepino, uma cerveja WymeHcko, duas garrafas de água Gorna Bania e UM CAFÉ! A revisora do comboio Sófia-Istambul é uma guardiã do templo, uma boa samaritana, uma sacerdotisa dos líquidos sagrados. Mais, acredito que fez a sanduiche do seu próprio lanche (cobrou por isso), mas viu a minha fome e o meu estado e maternalmente tratou de mim.


Em Sófia acabei por estar 25 minutos. A estação de comboios da capital da Bulgária era das coisas mais deprimentes que eu vi na minha vida. Assim que saltei do comboio, apareceu-me logo um tipo, fato de treino, cabelo grisalho, a saber se precisava de informação. Fui para a estação, a ver café em todo o lado. No guichet da bilheteira, uma senhora de óculos que parecia uma funcionária pública portuguesa em 1974 mandou-me para o guichet internacional, "after the change" (o centro de câmbios). …

The Constantine Connection

Capítulo 10 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio

Fronteira Sérvia - Sófia
Aqui na Sérvia as revistas foram mais sérias. Perguntas, passaporte visto várias vezes e de vários ângulos, perguntas. Sobretudo se tinha trazido cigarros portugueses, e muitos. O meu maço quase vazio respondia por mim. Uma hora de paragem para revistas - por isso se atrasam os comboios. Depois da última revista, o meu corpo decidiu estar farto e dormi, comboio parado, comboio a andar. Sono tranquilo. Acordei as 7h, e depois às 9h. Quando abro a porta, o meu amigo revisor já fumava com o comboio em andamento. - Belgrade? - Ufff...
Já tinha sido há muito. - Coffee? - No. Este não tinha café. Ia ser um dia inteiro sem uma gota de café. Eu racionava a água, o pão e a fruta trazidos de Berlim, mas café não tinha imaginado. Um daqueles termos que se vendem no Starbucks, Pedro, porque não te lembraste, resmungava comigo. Estava feito. Durante as próximas oito horas, até Sófia, só me restavam 3 fatias de pão,…

"Eu sei atravessar as fronteiras das coisas"

Capitulo 9 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio
Fronteira Hungaro-Sérvia

Estamos parados ha dez minutos. O revisor veio-me acordar com o toque combinado e disse-me gravemente "passport control". Depois abriu todos os compartimentos do comboio, deixando-os escancarados. Num comboio parado mesmo do outro lado da linha, entrou um policia novo, vestido de fato-macaco azul que diz 'Rendorski - Polizei'. De lanterna na mao, abriu todos os compartimentos, todas as portas, revirou tudo. Deixei de o ver. Ouco passos. Entra pelo compartimento dentro um policia, dois metros de altura, enchapelado e apetrechado com uma maquina pesada a tiracolo, tipo detector de metais. Pelo cracha parecia o simbolo da Hungria. Mas seguem-se outros, que dizem 'Toll - Customs'. Pois é - estamos numa das fronteiras da Uniao Europeia, precisamente com a Sérvia. Que deve amar pouco a UE apesar de a desejar, ja que enquanto nao forem esclarecidas feridas da Guerra na Jugoslavia, …

Trépak

Capitulo 8 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio
(Viena-Budapeste, Budapeste-Fronteira Hungaro-Sérvia)

Chego afinal as onze da noite a Budapeste. Ja estou na Hungria.
Espera-me uma chegada sem certezas, ou directamente para Sofia. O comico é ter de passar por Budapeste o rapaz que aos treze anos sabia de cor a historia do Imperio Austro-Hungaro – mesmo que na altura se chamasse ainda Sacro Imperio. Ter de passar por Viena e Budapeste, os dois angulos austro-hungaros. Lembrei-me do romance de Chico Buarque e pensei “p... da cidade, que ficou invejosa”.
Adormeci depois de mais uns capitulos da Odisseia. Telémaco anda a procura do pai e os pretendentes da mae vao armar-lhe uma cilada e meter-se no meio do caminho dele. O revisor das eslavouras, agora ja so com uma, e que passo a chamar de salvador (embora nao tenha nada contra a bigamia), apareceu tranquilizando-me de novo sete vezes. “Ten minutes, ten minutes, smoke not anything, ja?” Arrumei a trouxa, sobretudo de livros espa…