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Your car is not in the train

Capitulo 7 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio
(Viena-Budapeste)
Entao, Wien Westbanhof. Cheguei a estacao a tempo (dez minutos antes, mais do que portuguesmente), cedo e descansado, e o revisor olhou para o bilhete e disse: “Oh, I am very sorry Sir, your car is not on the train”. Primeiro pensei que o uso da palavra “car” fosse uma piada, depois pelo ar sério e pelo pouco ingles percebi que o caso era grave. Explicou-me entao que esta carruagem nao tinha sido colocada no comboio, e que eu tinha duas hipoteses: ou ia ao box office trocar, mas perdia o comboio porque saia dai a dez minutos; ou ficava neste comboio pagando mais e indo so até Bucareste. De la, o seu tremendamente péssimo ingles garantia, apanhava a conexao para Sofia. Entrei sem duvidas. Levou-me até a cabine, que era melhor que a de Berlim-Viena: tinha cama ou sofa, como eu decidisse levantando uma outra (a lei das opcoes aplica-se ate nos wagons lits) e uma mesinha que levantando-se tinha um utilissimo lavatorio. La larguei 42 euros, com a promessa de um bilhete manual entregue em Bucareste com o meu bilhete de Berlim, que parecia valer o mesmo que uma ma promessa de politico. No dia seguinte as 14h eu saberia o que fazer, garantia-me, enquanto me reforcava que era melhor tramcar-me na cabine com o trinco e a corrente duplamente. Estranhamente fico e mais do que isso, estou numa paz desmesurada. Penso ca dentro, com o comboio ja em marcha, que poderia ter ficado em Viena e dado parte ou tudo por perdido, mas isso nem me passou pela cabeca no momento, e mesmo ali agora, me parecia um disparate. Objectif: Lune, ja dizia o Tintim, e o meu era mesmo Istambul de comboio a todo o custo. Afinal, nada é muito diferente de Portugal, sobretudo nestas confusoes.
Dez minutos depois, o revisor bate a porta munido de uma morena mais definitiva no ingles. Diz-me primeiro ele, depois ela, apetrechada de uniforme e parafernalia revisiva, que nao posso pura e simplesmente ficar ali. Ali e que nao, “here you cannot, never, never”. Imaginei-a logo com plumas em cima de um piano, a romena residente do cabaret londrino em tour glorioso pela Roménia com o seu hit com o mesmo nome. Pois porque, desligou-se o cabaret call, o meu bilhete de comboio, vendido em Berlim pelo senhor Christian Felix, so é valido via Budapeste, pelo que eu nao posso ir para Bucareste. Tenho de sair daquele wagon-lit ou pagar 100 euros. A rispida disse ao outro para me devolver o dinheiro e para ir falar com o revisor seguinte. Eu acho que ainda pedi desculpas, tal a autoridade, mas explicando que a fraulein que me vendera o bilhete tinha-me quase obrigado a ir naquele comboio. O outro la me devolveu, ja na sua cabine de revisor (cada um tem uma, onde fica, e onde ha um frigorifico com bebidas), enquanto vendia um café e cervejas a um americano e recebia uma gorda gorjeta. Sao uma especie de tiranetes, pensei, com compartimentos e frigorificos e bilhetes improvisados. E atravessei a carruagem para ir falar com o outro revisor. Cenario igual em tintas diferentes. Este tinha uma secretaria, estava tudo limpo e arrumado, e olhava para a secretaria com um amor de funcionario publico pela ordem e disciplina. Era moco mais velho que o anterior, dava-lhe uns sessenta puxadotes. Quando me comecei a explicar, o telemovel dele comecou a tocar: era ultimo exito do rei da pop star russa, e era a Marika ao telefone, vi pelo visor. Atenda, pedi-lhe. Parecia-me ser hungaro mas nao era claro. La me disse, sorridente (foi boa ideia, Pedro, dizer-lhe para atender primeiro a Marika) que ele tambem nao podia, porque ele so ia ate Belgrado, e eu nao podia ficar em Belgrado, que fosse falar com o seguinte, que era o chefe deles. Burocracia portuguesa, pensei eu. Mas o que mais me intrigava e como todos eles, no mesmo comboio, iam para sitios diferentes. Ah, Arca de Noe, tu nunca mais nos abandonaste.

Avancei mais uma vez, comboio fora. Sondava-me a mim mesmo e continuava a espantar-me como continuava profundamente calmo e confiante. As viagens que se fazem nas viagens. Numa porta aberta, duas eslavas louras espojavam-se numa cama aberta com um senhor de oculos azuis a comer uma pizza. Pedi desculpa. Na cabine do chefe, ninguém. Fiquei a espera. Ele apareceu: era mesmo o homem dos oculos, o homem das eslavas louras, das eslavouras. La voltei ao meu relamborio, com bilhetes, fraulein, e a nau catrineta, e ele disse-me com tranquilidade paternal que em Belgrado ou em Budapeste ou la o que era a minha carruagem chegava, a que estava no meu bilhete certo de Viena, e entao poderia seguir para Sofia. Sentia-me num concurso televisivo pronto a ganhar a tombola maior que tinha perdido. Em 15 minutos, a minha viagem parava em Belgrado, Budapeste ou Bucareste, sem papeis ou horas de chegada ou comboios de ligacao. Mas este tranquilizou-me em absoluto, tudo chegava a horas, tudo ia correr bem. Percebi que eles nao tinham a certeza a que horas chegavam os comboios, mas na altura nao percebi porque – ate passar por isso.
Abriu-me uma cabine duas portas ao lado, era de primeira classe, tinha uma representacao setecentista de jovens a banhar-se (verifiquei e nao me pareciam ser freiras), e garantiu-me que me ia chamar quando chegassemos a Bucareste ou Budapeste, trocava-se frequentemente, ‘you stay, you calm, you alright’, pedindo-me apenas repetidamente que ‘do not smoke anything’, nao sabendo eu se se referia a cigarros, drogas leves ou eslavouras.

Continua

Comentários

Rita disse…
gosto dos destinos BBB!
aguardamos continuação com fervor...
atenção ao tabaco :)

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