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Presente absoluto (Berlim, dia 2)

Capítulo 2 da viagem da minha vida, Berlim-Istambul de comboio

Três e meia, cruzamento da Graefestrasse com a Planufer. É noite e manhã ao mesmo tempo. Sento-me a escrever como só em Berlim me acontece: com mãos demasiado pesadas para a cabeça em fúria, uma tempestade de ideias e revelações. Ao lado um designer faz um exercício no seu mac à volta de um festival, Fuck Me Now and Love Me Later: é um programa de vida.
O ruído odoroso da chuva molhada, o chão de madeira a ecoar-se; há um ruído desta língua áspera e suave, como o toque certo de um amor improvável. Cheira a capuccino e aguardente doce. Tenho sete janelas abertas, tantas como são as coisas que me convocam de todos os lados para que eu as escreva.
O presente aqui é absoluto. Há pelo menos três coisas que se podem passar agora, quando precisamente começou a cair esta chuva verde e cinzenta de Berlim: a rapariga louríssima do bar, que me serviu uma Lech de meio litro, irá sair do balcão e sorrir à rapariga solitária e triste que não tira os olhos da janela, como se esperasse o que sabe inesperável. O designer ao lado, que reparo agora que tem uma écharpe quase bizantina, virá pedir-me lume, porque está como eu ansioso que cheguem as seis horas e possamos fumar aqui dentro; tem um ar triste de quem foi abalroado por um camião afectivo. Duas mesas ao lado, os pais excessivamente luteranos de um vinte-e-quatrão de barba e cabelo escorridamente castanho-claro olham para o outro lado da rua e pensam que definitivamente ele não vai trazer-lhes nenhuma surpresa e por isso, nenhum interesse; não é preciso virem a Berlim visitá-lo mais: o pai preferia ter ficado a cortar a sebe da casa geminada a três quarteirões da Igreja. Quarta coisa, a acontecer agora: a rapariga de meias cor de laranja sorri para mim e põe os pés em cima do banco. Deve estar a perguntar-se sobre um homem de barba, pink dressed, que olha para o computador e para a janela sucessivamente, e brinca com o maço de cigarros em antecipação. O designer parou, desligou o computador (mudou de programa de vida?) e agora lê com detalhe umas folhas brancas, olha para a janela, e tem uma forma preguntativa e elegante de pegar na página no canto inferior direito e olhar como se as coisas estivessem escritas na janela e não na folha. Levantou-se e foi-se embora, bem como os pais luteranos, mas chegou um tipo de barba que parece espanhol e olha apaixonadamente para o Die Spiegel. A rapariga das meias decide ir lá para fora e faz fumaça com gestos de navegação.
As sete janelas vão-se reduzindo. Tenho saudades de uma morta há trezentos anos e prometi-lhe que estas férias não ia pensar nela. Mas tudo o que me apetece é escrever cartas a uma pessoa que nunca as lerá.
Tudo isto no dia em que encontrei um CD na Dussmann’s que procurava há quinze anos, as Variações Goldberg de Bach por Vladimir Feltsmann, que ouvi com os meus amigos berlinenses enquanto discutíamos se o Português Suave Azul era um cigarro de verão ou de inverno, e se ter infâncias concentradas e tristes nos fazia felizes aos trinta.

Comentários

Inês de Papel disse…
nesse texto é tudo lindo, até o mac do designer, ou a echarpe e a tua imagem vista pelo olhos da menina - pareces-me no paraíso...
ainda bem que viras "der spiegel" para cá e nos deixas ver uns reflexos.
Muito, muito, muito bom. è bom poder fazer a viagem contigo, dentro da tua cabeça.
Rita disse…
é o exercício do bar, vivido em ti... o que será que a rapariga das meias cor de laranja escreveria? ou o designer?
Patti disse…
Quando for grande, também vou ser designer em Berlim, para me escreverem assim...

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