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os dois países

Este último ano português, cheio de escândalos ligados ao primeiro-ministro, fez-me perceber que há dois países no meu país. Talvez esta imagem dupla se deva a termos vivido 500 anos desdobrados, entre os que se faziam ao mar e os que ficavam, muitos envolvidos em jogos sanguessugas.
Dois países, um deles sem dúvida descendente deste último: o país C. O país-Cunha, o país-Compadrio, o país-Chupista. É uma Casta de incapazes que começa cedo por revelar um Chico-espertismo na adolescência, com os pais e padrinhos a resolver problemas de insolvência intelectual no liceu e na faculdade; que se serve da Cunha Compadresca para colocar o menino (ou a menina) em bons lugares em empresas, onde se destinam apenas a prolongar o país C, pagando os favores a padrinhos, e gerando a sua prole seguinte, ou seja, os seus afilhados, ou seja os seus Capachos. Passam sempre pelo governo, associando-se a uma ou duas medidas caras e faraónicas que lhes passem a imagem de capazes. E vivem depois disto com o único objectivo de Chular o Estado até ao tutano, escondendo-se em homens de mão que façam o seu trabalho sujo, e acabando com estátuas em jardins municipais e aura de Senador da pátria.
Este país, que já estava em Sá de Miranda e Camilo Castelo Branco, nunca nos deixou. Esteve talvez apagado em grande parte do século XX, com o garbo moral e violento da República, com a vigilância persecutória de Salazar, com o idealismo de recriação do 25 de Abril. Mas lá para inícios de 1990, a chusma de escândalos mostrou que este país voltou.
Este país C não se coaduna com o país P: o país real de quem produz, de quem tem probidade, o país de quem trabalha, de quem paga impostos por tudo e por nada, é colocado à margem de quase todos os processos porque é independente e próprio, não depende de cunhas e redes de apoio – e por isso paga parmanentemente o seu peso em exclusão. É um país criativo, aumentado pela exclusão; um país inventivo, despachado, sofredor porque resignado. É daqui que vieram e vêm toda a casta de portugueses que interessam. A sua cartilha é a “Carta de Afonso de Albuquerque ao Rei”, de Miguel Torga.

Portugal vai desaparecer, por bancarrota, absorção castelhana, ou desinteresse geral, por quanto mais este Portugal C se expandir.
Ontem, as conclusões da Comissão contra a Corrupção promoveram medidas pífias que alargam o país C. E acabaram ineditamente com o inenarrável Ricardo Rodrigues do PS a atacar um membro do próprio partido, João Cravinho – que há anos tinha um pacote de medidas extraordinárias e concretas para combater a corrupção, e que conheceram o natural jamais.
Ontem, a medida do PEC para cobrar mais-valias bolsistas deixou de fora grandes grupos económicos: onde trabalha e se multiplica o país C, tudo ficou na mesma.
Ouvimos sempre que não somos como a Grécia, onde a economia paralela ocupa parte importante. Mas a economia paralela, do estado-sanguessuga que vive dentro do Estado, do país C que vive dentro de Portugal, ocupa uma percentagem muito superior ao que na Grécia significa o mercado negro. Aliás, posso jurar sobre os meus ossos, que o valor preciso do défice, que cada cêntimo que lhe corresponde, é do dinheiro que o país C rouba ao país P.

É por isso que este Governo não cairá pelos escândalos em que se enrolou e se vai continuar a enrolar, mas cairá na rua, com milhares de Portugueses em silêncio a desfilar de negro pelo estado lastimável deste país. É por isso que, não podendo fazer uma revolução como o 25 de Abril, podemos fazer um levantamento popular, uma Revolução Negra, que enterre em silêncio o país C. E que signifique uma mudança radical, obviamente acompanhada de leis, mas sobretudo da recusa terminante, definitiva e absoluta, deste país C.
Nos 100 anos da República, não vejo que outra coisa nos seja pedida.

Sem isto, Portugal já está morto, e vamos ver este país C satisfeito a levá-lo ao cemitério, e a receber o que lhe sobra em herança.

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