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O tiro no pé do Cardeal

Estou chocado, como católico e como ser pensante, com as afirmações inqualificáveis que o nº2 do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone, proferiu ontem: «Demonstraram muitos sociólogos, muitos psiquiatras, que não há uma relação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram, e disseram-no recentemente, que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia.»
Ó Senhor Cardeal: e os milhares de casos de pedofilia entre padres e jovens raparigas?
Ó Senhor Cardeal: e perceber que uma coisa é uma doença, a pedofilia, e outra coisa é uma opção sexual?
Afirmações destas, pensamentos destes, só fazem ressaltar um assunto antigo e grave, que tenho já tantas vezes referido aqui: a ditadura de vigilância moral do Vaticano, que tem uma concepção de religião que rasura e vigia o corpo. O que está a acontecer é o resultado de séculos de concepção limitante do corpo; o que está a acontecer é o pagar de contas, por milhares de inocentes, de uma repressão moral que fez do Catolicismo um inimigo do corpo.
Estamos agora a assistir a uma discussão inédita - terrível porque fundada em milhares de vidas destruídas pela pedofilia -, e impensável há vinte, dez anos: a possibilidade de os padres casarem. Os Ortodoxos permitem-no desde sempre: há uma opção, medida e pensada sobre o chamamento pessoal de Deus para cada um, entre casar e seguir o celibato. Outros ainda, no Ocidente, que queiram seguir mais radicalmente, podem ser membros de uma ordem religiosa.
Não vão passar dez anos sem que o celibato obrigatório caia. Aliás, a Igreja Católica teve mais tempo de padres casados do que de celibato obrigatório.
Mas mais grave que tudo isto: estas afirmações, que revelam um certo tipo de pensamento, são o tiro no pé que faltava a este Vaticano. Esperamos agora um novo Concílio, onde tudo seja discutido. E que naquelas paredes magníficas, o Espírito Santo passe e recrie tudo.

Comentários

Francisco disse…
eu perdi a conta ao número de tiros no pé que têm dado ultimamente.
o que me deixa a pensar...autoflagelação?

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