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Night Train to Vienna

Capitulo 5 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio

I
É meia noite entre Berlim e Viena. Tenho o Danúbio negro à minha frente iluminado por uma lua dos quadros de Friedrich. O comboio voa pelos carris da noite, enfeitiçado: quase nao se sente, é uma linha de sede.

O meu ipod deixou de trabalhar, e mostra-me convictamente uma maçã - comi logo uma para lhe fazer companhia. Ou agora ouviria a Noite Transfigurada de Schoenberg. Mas tudo o que se escreve acontece, e o ipod voltou neste momento à vida, e cá estou eu com a gravação de 1950 pelo Hollywood String Quartet.

Acabo de parar na estação de Decín, República Checa. Não vejo os monitores que indicam as partidas, mas penso ser uma paragem breve. Um revisor louro e gordo saído de um revival dos Abba anda freneticamente pela plataforma com um walkie-talkie como se estivesse na ONU. Se ele estivesse sozinho, o comboio fosse uma árvore abandonada pelas próprias raízes, e ele olhasse em desespero tranquilo para a lua, era mesmo Friedrich.


II

Tenho uma cabine só para mim, cama e sofá, como eu e a Odisseia quisermos. O revisor veio cá buscar e o bilhete, e no seu ingles cheio de hungarismos disse-me "Issstanbúll? wuuuuuu, vát a trip! Tvo mány tchanges". Afinal parece que o sr. Christian Felix de Berlim me enganou dizendo que era directo (bem ele dizia que só vendia 6 bilhetes destes por ano). Tenho de reservar uma cabine assim em cada destino de mudança. Isto quis dizer, quando cheguei hoje a Viena, que tive de reservar carruagem para Istambul, mas "na, na, na, Misterr Linú", disse a loura e seca Fraülein de vinte anos enquanto olhava para o meu cartão do cidadão. Comboio de amanhã esgotado. Resultado: vou ao hotel à hora de almoço dormir duas horas, tomar banho, e lá vou hoje eu para viagem de 24 horas sem pausas para Sófia ao fim da tarde.

Outra cabine só para mim, como em Berlim-Viena. O sol nascia do lado do corredor, para eu ver o Danúbio dos dois lados. Um rio dourado cortando o comboio no seu correr líquido de sol e céu.


III

Foi preciso fazer 33 anos para perceber que a minha casa no mundo sou eu.


IV

Telémaco vai com a deusa Atena (sob outra identidade) numa viagem de Ítaca à procura do pai. Pai e filho viajam para encontrar-se: duas viagens mas com um objectivo único, achar Ulisses. Kavafis no seu poema "Ítaca" rasgava milénios depois a pergunta que Ulisses se teria feito: o que interessa é a viagem, não chegar a casa.

Todas as minhas viagens procuraram esta viagem. Não foram ensaios, foram realmente viagens à procura, à volta da viagem.

Comentários

Rita disse…
no meu diário "seco" de Moçambique escrevi no 1º dia: "o que é a minha casa?" ao 4º dia disse: "a minha casa são os meus sentimentos".
é bom encontrar a nossa casa.
P.s - eu bem me preocupei com isso do carregador do ipod. como fazes para carregar no comboio? ai, a minha vida, que ainda tenho de enviar um por UPS!

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