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Mãos de pedra humana (Berlim, dia 3)

Capítulo 3 da viagem da minha vida (Berlim-Istambul de comboio)



Há uma ideia que me persegue o olhar em Berlim: de que toda esta cidade já esteve morta. Que aconteceu aqui o horror, de gente expulsa da sua casa, desapossada de tudo até de si mesma, só por serem judeus. Que foi destruída por bombardeamentos, e foi um campo de batalha que a deixou dividida. Que foi reunificada, símbolo de um país e de cinquenta anos de mundo, com milhões de pessoas a reaprenderem as ruas. Mas ainda mais, como é que esta cidade sobreviveu a perceber-se de quase vinte anos de nazismo, em que teve uma identidade que se colou a ela como uma máscara sugante. E depois de acordar deste pesadelo real, décadas de muro.
Cada vez que atravesso uma rua, que entro num café, que subo as escadas de uma casa, toco no seu tecido trágico: que judeu teria vivido aqui e perdido a sua casa, que família teria chorado um soldado que não viria mais, quantos teriam procurado fugir para o ocidente, ou refugiado nas caves e paredes quando a cidade ficou desfigurada? É sobretudo a cidade do entretanto, entre feridas brutais, que me assola o pensamento e faz pensar o sangue.
É também esta energia que a torna hoje a capital cultural da Europa: uma cidade que passou mais de meio século a reconstruir-se permanentemente, tem essa energia nas veias das ruas.
Cada manhã, assim que saio de casa, as torres da igreja de Hasenheide aparecem-me antes do céu. É uma mão, de pedra humana, que parece aproximar o céu da terra. Está no horizonte no fim da rua, árvores e cúpulas a limitar o horizonte. Tudo é plano em Berlim, e as igrejas parecem ainda mais altas, ainda mais humanas na sua desmesura.
Talvez seja esta a outra parte - a outra mão, o outro braço - de energia desta cidade. Foi tão longe em tudo no século XX, que o céu de vez em quando desce aqui.

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