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Jardins para o fim dos tempos: Morte e Transfiguração

Morte e Transfiguração, poema sinfónico de Richard Strauss

Começa imperceptivelmente, como as grandes ideias, as grandes dores, como a morte a trabalhar o corpo, dia após dia, suavemente. A música vai subindo, uma fanfarra assustadora, bizarra, cómica das próprias emoções. Como se a morte entrasse no corpo e essa entrada fizesse um espelho no próprio ser, que se visse morto. Tudo é irrisório, tudo é pequeno, tudo foram escadas para o grande momento em que o corpo foi uma aprendizagem do outro lado. Primeiro o pânico, não existiu nada, nada valeu.
Depois, este tema desaparece, e uma melodia reconfortante, suave, construída pelas cordas e elevada pelos sopros, em que se vê o outro lado. Em que o corpo é libertado do corpo, e ganha o seu peso em luz. É só o corpo que falta ao corpo.
Tudo se repete, num clímax final em que os dois temas se cruzam, e é já a música que é o caminho para o outro lado, o chão do depois.



Nada é mais verdadeiro que dizer que esta música sou eu: como se me acontecesse, a cada compasso. Há acontecimentos que falam do som de cada instrumento, há lugares, pessoas e coisas abandonadas no coração que falam dentro desta música. Às vezes penso mesmo que ela precisou da minha vida para continuar a existir e a propagar-se - porque é mais antiga que os homens e os seres, e é dentro das vidas dos seres que a habitam que se prolonga e prossegue.

Vale a pena ouvir Jascha Horenstein (Chandos), preciso nas escadas sonoras; ou a gravação de 1930, impecável no som e na direcção implacável de Arthur Rodzinksi (o homem que a NBC contratou para "treinar" a orquestra de Toscanini antes deste chegar) - está na colecção "Great Conductors", que se compra por um hamburguer na internet. Mas ninguém tocou nesta música como os três senhores que se seguem: Fritz Reiner (Decca), talvez o maior intérprete de Richard Strauss: aqui é o detalhe e o detalhe de ondas sonoras, como se se pudesse dirigir a orquestra do mar. Wilhelm Furtwängler é um mestre de ritmo, e faz deste combate uma luta filosófica: impossível de ouvir o climax final sem pensar que ouviremos estes compassos no momento em que estivermos a deixar o corpo. E depois Otto Klemperer, que reúne as qualidades de todos os anteriores: contrastes vivos, ritmos implacáveis, uma certa solidez de pedra como se fôssemos todos estátuas à espera do desejo de Pigmalião.


O que posso dizer é que muitas vezes, se existo, cumpro o meu dia e a minha vida, é porque esta música me ensinou a transfigurar.

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