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"C'é cosa è un cuore"

"C'é cosa è un cuore", assim em italiano antigo, quase erro ortográfico, escreveu na capa do seu caderno novo. que coisa é um coração, que coisa é um monstro branco de páginas por encher, a artéria que liga o céu ao corpo, o inferno à alma,

pensou, enquanto tirava um cigarro e o encostava aos lábios. precisava de sentir a presença de qualquer outra coisa física junto do seu corpo. as notícias que esperava não chegavam, os remadores com notícias de Creta tardavam a atravessar as ilhas do pensamento e da comunicação. mais do que não chegarem notícias físicas, não lhe chegavam notícias ao coração. uma estrada camada de fumo e de duplicidade parecia fazer naufragar tudo.

morremos no coração, escreveu na primeira página, desejando mais uma vez do que nunca que aquela frase lhe acontecesse, de uma vez para sempre - que subisse as montanhas do silêncio e caísse como uma condenação no amor ausente.

fechou o caderno. choviam muitas coisas lá fora, mas muitas mais na sua janela. a nona sinfonia de Mahler dentro da cabeça, a chover contra a chuva. olhou para a capa, para a frase que escrevera no início, que coisa é um coração.

definitivamente, nunca compreenderia.

Comentários

Castor disse…
Foi então que se aproximou um velho druída e lhe soprou ao ouvido que nada é definitivo.
Até o coração cansado da rainha Boadicea, costurado com fios de ouro, voltara a bater novamente.
Nascemos no coração, pensou enquanto tirava um outro cigarro e o encostava aos lábios.
Tereza disse…
Abriu de novo o seu caderno novo e escreveu "para que o círculo se complete soa uma música atrás de outra até o príncipio se tornar fim. morremos nascemos no coração. Até o príncipio se tornar fim.
como um vício."

E sentiu o calor do cigarro nos lábios.

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