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Café para Mozart, Joggers e Orquestra de Sopros

Capítulo 6 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio




Bellevue, oito e meia da manhã. Os jardins desdobram-se em estátuas, as estátuas ampliam o excesso. Um excesso de alma e de sensacoes, uma urgencia de sentir intensa e complexamente, o arrebatamento absoluto do conceito à forma - mas sobretudo à forma. Como mais tarde na Karlskirsche. Tantos anos para perceber o que era o Barroco, até Bellevue e Karlskirsche me derrubarem os olhos.


Passa democraticamente por mim um corvo grisalho, penas cinzentas, corpo preto. Alguém tem de quebrar um Barroco onde os corvos eram a crise, a intranqulidade - do desfazer de séculos que faziam o mundo tranquilinho.
Joggers fazem das elipses hípicas de Uber Bellevue uma ultrapassagem de si mesmos. Há um rapaz que passou por aqui várias vezes. Corre em círculos claros e suados onde há dois séculos atrás correu o seu trisavo, segurando o freio do cavalo do Prinz Eugen. O círculo alarga-se em espiral, um corre o destino do outro, num corpo semelhante, num espaco-excesso.

Sigo umas ruas abaixo, entro no café mais antigo de Viena, o Fraüenhuber. Früstruck com sumo de laranja e um café Schlagobers. Mozart tocou Handel aqui, Beethoven estreou aqui o seu Quinteto para Piano e Sopros. Sinto-me numa espécie de estado de espírito puro. A minha vida foi sempre abracar definitivos breves, cumpri-los, porque na terra o absoluto é um puzzle feito de pecas brevemente definitivas.

Comentários

Patti disse…
Excelente Mestre!

Estes posts estão carregadinhos de melodias...
Acho que Portugal inteiro está suspenso agarrado ao teu blog e a vive a tua viagem contigo. Sentes o peso dentro da tua mochila?
Clem disse…
É verdade, estamos a acompanhar-te. Viver assim a viagem entre a absorção do passado e o deixar-se verter para o futuro só pode ser vivê-la até ao impossível.
Alberto Pereira disse…
"A minha vida foi sempre abraçar definitivos breves, cumpri-los, porque na terra o absoluto é um puzzle feito de pecas brevemente definitivas"


Genial

A viagem a levar-te à magia do pensamento.

Alberto Pereira
Bem, ele não precisa de viagens para chegar à magia do pensamento, a ele basta-lhe respirar para conseguir lá chegar! Mas, sim Alberto,tens razão,nesta viagem, está lá de uma forma ainda mais genial que o do costume. Não fosse fazer-me falta aqui diria para continuar por lá mais uns tempos!
Cintra disse…
Obrigado Pedro por nos levares desta forma tão especial numa viagem maravilhosa.

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