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As crónicas de Bizâncio vão a Bizâncio

Capítulo 4 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de Comboio


Comboio 60477, Berlim-Viena.
Na mala, o ipod, dois cadernos azuis, Byzantium de John Julius Norwich, a Odisseia de Homero. Queria trazer mais livros, mas uma viagem não pode impedir outra. Ficam em Berlim para o regresso. Roupa velha, para usar e deitar fora. Um maço de Português Azul, que deve ser a única coisa que ainda não se perdeu em Portugal.
Quarenta e tal horas e algumas paragens separam-me de Bizâncio. Só vou ver Bizâncio, o que perpetua aquele império que foi o ocidente mais complexo que existiu.
Primeiro Viena: as casas de Beethoven, uma de Mozart, uma de Haydn. A Ópera e o Musikverein. Mas sobretudo o ar de um lugar que eu respiro por música.
Quem é a pessoa que regressa?, penso a escrever. Que parte de mim ficará num lugar a habitá-lo, que outras coisas virão comigo. No rosto invisível, tenho muitos rostos, compostos como as colagens dos surrealistas. Quem voltará de mim mesmo? Deixo a pergunta sentada na plataforma da estação de Hauptbahnhof, e entro no comboio. Vejo-a acenar-me, com mãos perguntativas e antigas, até os dois nos perdermos de vista.

Comentários

Rita disse…
a pergunta que ficou sentada a ver-te partir é uma imagem muito boa! quando voltares, ela passará a afirmação?
Alberto Pereira disse…
60477.
Nº de uma demora que soube esperar.
O sonho entra no comboio. O céu que se faz há muito tempo, senta-se. O corpo aguarda que o horizonte chegue. Olha para trás, e lê, Hauptbahnhof.
Mas o coração já habita Bizâncio.

Em frente!

Alberto Pereira

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