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Abschied in die Cafe Central


Capitulo 7 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio



Uma hora de sono numa cama branca e limpa é o céu. O empregado adolescente que me atende no hotel fica espantado quando lhe explico que fico no hotel apenas duas horas. Pergunta-me se estou insatisfeito. Manda-me preencher um papel com dados. E faco uma coisa que nunca fiz na vida - colocar no papel da profissao Writer. Ele olha para o papel e abre um explicado "Ah!" capaz de conter todas as explicacoes do universo.

Recuperado, e depois de deitar fora a tshirt de hoje em homenagem ao Francisco (que me contou que tinha o sonho de fazer uma viagem destas e no final de cada dia deitar fora a tshirt), sigo para o Belvedere, para ver o museu. De manha so passei nos jardins. Um hamburguer a correr no burger king, e um café na Illy shop diante. A empregada sorriu-me, falou comigo em italiano, perguntou-me se ia ao Belvedere, e acabou piscando-me o olho. No Belvedere Inferior e na Orangerie, as estatuas nao me piscaram o olho, mas o barroco sim: esta neste momento uma exposicao sobre o Prinz Eugen, um rapaz de Saboia que fugiu para Viena porque a mae foi presa por Luis XIV por ser envenenadeira. Chegou ca e foi o heroi contra o cerco turco, e dai em diante foi so acumular triunfos. A exposicao deixou-me matar as saudades das gravuras da época que estaria a folhear neste momento se nao estivesse aqui, e rasgava-se em retratos possantes e apoteoticos. Nunca vi um rei portugues em tantas estatuas, gravuras, quadros de batalhas e retratos pintado quase como um semi-deus. Curioso como o jovem imperador que enterrou o Prinz Eugen, Carlos VI, sentiu necessidade de ser pintado em apoteose depois de o general morrer. Queria beber-lhe a alma?

Depois o Belvedere acima, separado do anterior pelo jardim dos joggers. Impressionante uns bustos de um setecentista Messerschmidt: tal e qual, como os cacas alemaes da segunda guerra que eu fazia em kits. Sao bustos com todas as expressoes, sobretudo testes de ironia absoluta: minimos e comicos, sao tao eficazes como a esfinge que me olha do outro lado da janela.

No andar de cima, O Beijo de Klimt. Palavra de honra que so me ocorreu ao ve-lo: "Tu beijas-me e a paisagem acaba". Mas depois ao lado apareceram dois quadros de Egon Schiele, O Abraco e A Morte e a Donzela. E ficou tudo estragado. Fui com o quadro gravado nos olhos até ao fim do dia.

Ao voltar a descer os jardins do Belvedere, nao tenho duvidas: o jogger da manha esta sentado onde eu estive de manha: no mesmo banco, a ler. Agora faco eu jogging, para ainda ir ao Café Central a horas de apanhar o comboio para Sofia. Olhamo-nos e ele sorri, como se tivessemos reconhecido um papel simbolico um para o outro. No meio estava a esfinge.

Apanho o eléctrico para a Opera. Este café é a sonata alla turca de Mozart! Exotico/medieval de motivos turcos, como se o medo do cerco turco de 1700 se tivesse transformado em obra de arte. Pedi um café Schlagobers carregadinho de natas e, claro, um Strudel. Veio a fumegar, acompanhado de creme e morangos. E um portugues azul no fim para comemorar.

Aqui teoricamente se reunem os artistas, mas sei que os poetas da minha geracao, os do grupo de Viena, que defendem uma poesia ligada ao real quotidiano, vao mais para pequenos cafés perto daqui.

Saio a correr para apanhar o comboio para Sofia.

Penso no caminho, ladeado por palacetes e edificios triunfais, que Viena é imperial e solar. Respira nos parques, nos jardins e nos cafés. Mas nao tem aquele gesto alto e profundo de Berlim, que respira na grandeza, nos espacos sonhados e concretizados. Viena é mais pequena e mais barroca. Oriente-Ocidente sintetizado numa equacao de arte sociologica: as igrejas de um barroco catolico exuberante, a magnificencia mais exotica e menos tremenda que Versailles, os motivos mouriscos ou turcos a salgar e a problematizar os edificios, o rigor e a altura germanicas, o gesto proximo, saboroso, popular dos Alpes e do Tirol. Tudo com um rio mais eslavo que Mittel-Europa, que europeu central, mas isso so se percebe em 1918.

E por tudo isto da vontade de imaginar uma vida em Viena, e te-la. De dar um corpo a este abraco de diferencas que gerou seculos de arte torrencial.


Chego a estacao em modo de adeus, a ouvir o quarteto A Morte e a Donzela de Schubert. E quando, com dez minutos antes, mostro o meu bilhete ao revisor, ele diz-me, com um ingles de palavras trocadas que achei ser piada, ate perceber infelizmente que nao: "I am sorry for you, dear sir, your car is not in this train".

Literalmente, a minha carruagem tinha desaparecido.


continua

Comentários

No momento exacto e literal em que terminei de ler a última frase deste post o meu telemóvel tocou a comunicar-me que tinha recebido um sms. E, imediatamente falei para mim: É ele. Levantei-me exteriormente calma, peguei no telemóvel, desbloqueei-o, abri a mensagem e vi no remetente: PSL pessoal. Era mesmo ele a partilhar comigo que estava naquele preciso momento a concretizar um dos seus sonhos - a entrar na Hagia Sofia.
Francisco disse…
a deitares tshirts fora, é assim mesmo
Castor disse…
A ausência escrita
é uma presença sentida
no corpo de cada sílaba
trincada no desejo
de um presente absoluto.
Rita disse…
aprendi uma nova profissão, ser uma envenenadeira, qual bruxa má, qual quê? inscrita nas finanças e a passar recibos verdes!
adorei o strudel a fumegar, senti aqui o cheiro a morangos.

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