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A mostrar mensagens de Abril, 2010

Your car is not in the train

Capitulo 7 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio
(Viena-Budapeste)
Entao, Wien Westbanhof. Cheguei a estacao a tempo (dez minutos antes, mais do que portuguesmente), cedo e descansado, e o revisor olhou para o bilhete e disse: “Oh, I am very sorry Sir, your car is not on the train”. Primeiro pensei que o uso da palavra “car” fosse uma piada, depois pelo ar sério e pelo pouco ingles percebi que o caso era grave. Explicou-me entao que esta carruagem nao tinha sido colocada no comboio, e que eu tinha duas hipoteses: ou ia ao box office trocar, mas perdia o comboio porque saia dai a dez minutos; ou ficava neste comboio pagando mais e indo so até Bucareste. De la, o seu tremendamente péssimo ingles garantia, apanhava a conexao para Sofia. Entrei sem duvidas. Levou-me até a cabine, que era melhor que a de Berlim-Viena: tinha cama ou sofa, como eu decidisse levantando uma outra (a lei das opcoes aplica-se ate nos wagons lits) e uma mesinha que levantando-se tinha um utilissimo la…

Abschied in die Cafe Central

Capitulo 7 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio


Uma hora de sono numa cama branca e limpa é o céu. O empregado adolescente que me atende no hotel fica espantado quando lhe explico que fico no hotel apenas duas horas. Pergunta-me se estou insatisfeito. Manda-me preencher um papel com dados. E faco uma coisa que nunca fiz na vida - colocar no papel da profissao Writer. Ele olha para o papel e abre um explicado "Ah!" capaz de conter todas as explicacoes do universo.
Recuperado, e depois de deitar fora a tshirt de hoje em homenagem ao Francisco (que me contou que tinha o sonho de fazer uma viagem destas e no final de cada dia deitar fora a tshirt), sigo para o Belvedere, para ver o museu. De manha so passei nos jardins. Um hamburguer a correr no burger king, e um café na Illy shop diante. A empregada sorriu-me, falou comigo em italiano, perguntou-me se ia ao Belvedere, e acabou piscando-me o olho. No Belvedere Inferior e na Orangerie, as estatuas nao me piscaram o o…

Café para Mozart, Joggers e Orquestra de Sopros

Capítulo 6 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio




Bellevue, oito e meia da manhã. Os jardins desdobram-se em estátuas, as estátuas ampliam o excesso. Um excesso de alma e de sensacoes, uma urgencia de sentir intensa e complexamente, o arrebatamento absoluto do conceito à forma - mas sobretudo à forma. Como mais tarde na Karlskirsche. Tantos anos para perceber o que era o Barroco, até Bellevue e Karlskirsche me derrubarem os olhos.

Passa democraticamente por mim um corvo grisalho, penas cinzentas, corpo preto. Alguém tem de quebrar um Barroco onde os corvos eram a crise, a intranqulidade - do desfazer de séculos que faziam o mundo tranquilinho. Joggers fazem das elipses hípicas de Uber Bellevue uma ultrapassagem de si mesmos. Há um rapaz que passou por aqui várias vezes. Corre em círculos claros e suados onde há dois séculos atrás correu o seu trisavo, segurando o freio do cavalo do Prinz Eugen. O círculo alarga-se em espiral, um corre o destino do outro, num corpo semelhante…

Night Train to Vienna

Capitulo 5 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de comboio

I É meia noite entre Berlim e Viena. Tenho o Danúbio negro à minha frente iluminado por uma lua dos quadros de Friedrich. O comboio voa pelos carris da noite, enfeitiçado: quase nao se sente, é uma linha de sede.
O meu ipod deixou de trabalhar, e mostra-me convictamente uma maçã - comi logo uma para lhe fazer companhia. Ou agora ouviria a Noite Transfigurada de Schoenberg. Mas tudo o que se escreve acontece, e o ipod voltou neste momento à vida, e cá estou eu com a gravação de 1950 pelo Hollywood String Quartet.
Acabo de parar na estação de Decín, República Checa. Não vejo os monitores que indicam as partidas, mas penso ser uma paragem breve. Um revisor louro e gordo saído de um revival dos Abba anda freneticamente pela plataforma com um walkie-talkie como se estivesse na ONU. Se ele estivesse sozinho, o comboio fosse uma árvore abandonada pelas próprias raízes, e ele olhasse em desespero tranquilo para a lua, era mesmo Friedr…

As crónicas de Bizâncio vão a Bizâncio

Capítulo 4 da viagem da minha vida: Berlim-Istambul de Comboio


Comboio 60477, Berlim-Viena.
Na mala, o ipod, dois cadernos azuis, Byzantium de John Julius Norwich, a Odisseia de Homero. Queria trazer mais livros, mas uma viagem não pode impedir outra. Ficam em Berlim para o regresso. Roupa velha, para usar e deitar fora. Um maço de Português Azul, que deve ser a única coisa que ainda não se perdeu em Portugal. Quarenta e tal horas e algumas paragens separam-me de Bizâncio. Só vou ver Bizâncio, o que perpetua aquele império que foi o ocidente mais complexo que existiu. Primeiro Viena: as casas de Beethoven, uma de Mozart, uma de Haydn. A Ópera e o Musikverein. Mas sobretudo o ar de um lugar que eu respiro por música. Quem é a pessoa que regressa?, penso a escrever. Que parte de mim ficará num lugar a habitá-lo, que outras coisas virão comigo. No rosto invisível, tenho muitos rostos, compostos como as colagens dos surrealistas. Quem voltará de mim mesmo? Deixo a pergunta sentada na platafor…

Mãos de pedra humana (Berlim, dia 3)

Capítulo 3 da viagem da minha vida (Berlim-Istambul de comboio)



Há uma ideia que me persegue o olhar em Berlim: de que toda esta cidade já esteve morta. Que aconteceu aqui o horror, de gente expulsa da sua casa, desapossada de tudo até de si mesma, só por serem judeus. Que foi destruída por bombardeamentos, e foi um campo de batalha que a deixou dividida. Que foi reunificada, símbolo de um país e de cinquenta anos de mundo, com milhões de pessoas a reaprenderem as ruas. Mas ainda mais, como é que esta cidade sobreviveu a perceber-se de quase vinte anos de nazismo, em que teve uma identidade que se colou a ela como uma máscara sugante. E depois de acordar deste pesadelo real, décadas de muro. Cada vez que atravesso uma rua, que entro num café, que subo as escadas de uma casa, toco no seu tecido trágico: que judeu teria vivido aqui e perdido a sua casa, que família teria chorado um soldado que não viria mais, quantos teriam procurado fugir para o ocidente, ou refugiado nas caves e paredes…

Presente absoluto (Berlim, dia 2)

Capítulo 2 da viagem da minha vida, Berlim-Istambul de comboio

Três e meia, cruzamento da Graefestrasse com a Planufer. É noite e manhã ao mesmo tempo. Sento-me a escrever como só em Berlim me acontece: com mãos demasiado pesadas para a cabeça em fúria, uma tempestade de ideias e revelações. Ao lado um designer faz um exercício no seu mac à volta de um festival, Fuck Me Now and Love Me Later: é um programa de vida.
O ruído odoroso da chuva molhada, o chão de madeira a ecoar-se; há um ruído desta língua áspera e suave, como o toque certo de um amor improvável. Cheira a capuccino e aguardente doce. Tenho sete janelas abertas, tantas como são as coisas que me convocam de todos os lados para que eu as escreva.
O presente aqui é absoluto. Há pelo menos três coisas que se podem passar agora, quando precisamente começou a cair esta chuva verde e cinzenta de Berlim: a rapariga louríssima do bar, que me serviu uma Lech de meio litro, irá sair do balcão e sorrir à rapariga solitária e triste que n…

O mar de Berlim

Capítulo 1 da viagem da minha vida, Berlim-Istambul de comboio



Encontrar um chão para o coração: isto é ser na cidade da minha vida.

Berlim não tem mar, apenas o rio Spree; mas há uma ondulação de pedra, precisamente anterior e presente aos edifícios, com marés de ruas e movimentos de oceano. cai entre os espaços, onde se abraçou sem gestos mas com a história inteira a certeza precisa de uma rua.
Começo aqui: sou de pedra. é preciso recuperar os caminhos antigos, a artéria dos gestos, que ligava o mundo ao coração. E por isso a sonata D. 960 de Schubert, canção de infância para embalar adultos. porque esta cidade viaja-me desde muito longe, desde uma infância de que já perdi o corpo. mas não a forma de me afogar até à raiz do desejo, e recomeçar.

os dois países

Este último ano português, cheio de escândalos ligados ao primeiro-ministro, fez-me perceber que há dois países no meu país. Talvez esta imagem dupla se deva a termos vivido 500 anos desdobrados, entre os que se faziam ao mar e os que ficavam, muitos envolvidos em jogos sanguessugas.
Dois países, um deles sem dúvida descendente deste último: o país C. O país-Cunha, o país-Compadrio, o país-Chupista. É uma Casta de incapazes que começa cedo por revelar um Chico-espertismo na adolescência, com os pais e padrinhos a resolver problemas de insolvência intelectual no liceu e na faculdade; que se serve da Cunha Compadresca para colocar o menino (ou a menina) em bons lugares em empresas, onde se destinam apenas a prolongar o país C, pagando os favores a padrinhos, e gerando a sua prole seguinte, ou seja, os seus afilhados, ou seja os seus Capachos. Passam sempre pelo governo, associando-se a uma ou duas medidas caras e faraónicas que lhes passem a imagem de capazes. E vivem depois disto com o …

"C'é cosa è un cuore"

"C'é cosa è un cuore", assim em italiano antigo, quase erro ortográfico, escreveu na capa do seu caderno novo. que coisa é um coração, que coisa é um monstro branco de páginas por encher, a artéria que liga o céu ao corpo, o inferno à alma,pensou, enquanto tirava um cigarro e o encostava aos lábios. precisava de sentir a presença de qualquer outra coisa física junto do seu corpo. as notícias que esperava não chegavam, os remadores com notícias de Creta tardavam a atravessar as ilhas do pensamento e da comunicação. mais do que não chegarem notícias físicas, não lhe chegavam notícias ao coração. uma estrada camada de fumo e de duplicidade parecia fazer naufragar tudo.morremos no coração, escreveu na primeira página, desejando mais uma vez do que nunca que aquela frase lhe acontecesse, de uma vez para sempre - que subisse as montanhas do silêncio e caísse como uma condenação no amor ausente.fechou o caderno. choviam muitas coisas lá fora, mas muitas mais na sua janela. a no…

O tiro no pé do Cardeal

Estou chocado, como católico e como ser pensante, com as afirmações inqualificáveis que o nº2 do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone, proferiu ontem: «Demonstraram muitos sociólogos, muitos psiquiatras, que não há uma relação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram, e disseram-no recentemente, que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia.» Ó Senhor Cardeal: e os milhares de casos de pedofilia entre padres e jovens raparigas? Ó Senhor Cardeal: e perceber que uma coisa é uma doença, a pedofilia, e outra coisa é uma opção sexual? Afirmações destas, pensamentos destes, só fazem ressaltar um assunto antigo e grave, que tenho já tantas vezes referido aqui: a ditadura de vigilância moral do Vaticano, que tem uma concepção de religião que rasura e vigia o corpo. O que está a acontecer é o resultado de séculos de concepção limitante do corpo; o que está a acontecer é o pagar de contas, por milhares de inocentes, de uma repressão moral que fez do Catolicismo um inimigo …

Jardins para o fim dos tempos: Morte e Transfiguração

Morte e Transfiguração, poema sinfónico de Richard Strauss

Começa imperceptivelmente, como as grandes ideias, as grandes dores, como a morte a trabalhar o corpo, dia após dia, suavemente. A música vai subindo, uma fanfarra assustadora, bizarra, cómica das próprias emoções. Como se a morte entrasse no corpo e essa entrada fizesse um espelho no próprio ser, que se visse morto. Tudo é irrisório, tudo é pequeno, tudo foram escadas para o grande momento em que o corpo foi uma aprendizagem do outro lado. Primeiro o pânico, não existiu nada, nada valeu. Depois, este tema desaparece, e uma melodia reconfortante, suave, construída pelas cordas e elevada pelos sopros, em que se vê o outro lado. Em que o corpo é libertado do corpo, e ganha o seu peso em luz. É só o corpo que falta ao corpo. Tudo se repete, num clímax final em que os dois temas se cruzam, e é já a música que é o caminho para o outro lado, o chão do depois.


Nada é mais verdadeiro que dizer que esta música sou eu: como se me acontecess…

uma ideia que dói

A Páscoa é uma violência que faz confusão à própria ideia de Deus.
Ter um filho, fazê-lo nascer humano e no meio dos homens, sem truques technicolor ou 3D, e entregá-lo à morte à mão dos humanos. Tão violento e excessivo como o próprio dia de Quinta-feira Santa, em que foi instituída a única religião do mundo em que os crentes reproduzem o sacrifício do Deus, e o comem. Há em tudo isto uma devastação, que vai das raízes do tempo à realidade mais directa de um ser humano. Não falo da prática da Igreja, não falo da liturgia, falo do símbolo: nestes dias, em que a Páscoa são "mini-férias", só pensar nisto, só pensar, mesmo para quem não acredite em nada, não deixa de ser uma ideia absolutamente perturbadora. Uma ideia tão violenta que até a Deus faz confusão, no dentro do tempo que se repete a cada instante.