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O CONGRESSO DO PSD

Os Congressos do PSD são o Teatro Nacional.
Emoções ao rubro, personagens-tipo, "dramalhões cosidos às facadas" (como dizia Camilo), aldeias da roupa branca, Sebastianismos revistos e adulterados, tabus. Se Aristóteles fosse vivo, fazia um capítulo extra na Poética não sobre a Tragédia, mas sobre este género único e híbrido chamado "Congresso do PSD".
Mas a verdade é que para além de enorme entretenimento - com excelentes oradores, sem dúvida - estes congressos discutem com encenação e paixões velhas questões, feridas novas e fundas - e limpam-se. E o que é espantoso é que há qualquer coisa de ambiente de ódio veneziano, misturado com uma catarse colectiva que acaba por ser democrática na raiz e no efeito, e ligar um partido desavindo. Um partido que se cose às facadas.
Já não havia um assim há anos (por causa das eleições directas para o líder que esvaziavam os congressos). E eu, que tirando o Sol, tenho deixado de comprar jornais portugueses, quebrei um jejum quaresmal sobre o país para ver esta maravilhosa representação da alma nacional.
Na verdade, temos cinco partidos com representação parlamentar. Há quanto tempo não víamos um Congresso? E um Congresso onde tudo foi dito e tantas lavagens foram feitas.
Eu, que sou de esquerda e à esquerda voto (se a esquerda em que voto não estivesse entregue a um líder que de esquerda nem a mão tem) fico agradado e espantado com esta limpeza interior que o país não faz. Espero sinceramente que em tempo de silêncios amordaçados, este exemplo de um partido faça ondas nos outros.

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