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200 anos de Chopin

Podem dizer-me que mais importante são estradas, crescimento económico, ir a Marte: mas eu acredito que sem Fréderic Chopin (1810-1849) o mundo era inabitável. Não o mundo de todos os dias, mas o mundo interior. Este homem rasgou clareiras maiores do que uma ponte sobre o Volga, o Tejo, o Atlântico: este homem rasgou pontes para os rios da morte, para trazer novas vidas à vida.
A habitação interior das coisas: criar espaços de alma em que cada ser não está sozinho, em que cada ser se sente acompanhado em cada um dos seus mais complexos e solitários estados de espírito. Em que cada um dos mais impronunciáveis sentimentos tem um lugar em música. Em que cada ser pode compreender-se e chegar mais longe.




Não gosto da figura de Chopin que o romantismo construiu, muito devido a interpretações hiper-românticas da sua obra, e aos testemunhos da sua companheira de vida, George Sand, que o descreviam como um ser de uma sensibilidade quase doentia. Não é o Chopin cadavérico e doente, mas o homem inteiro e visionário, que escrevia em jacto com a inteligência das emoções puras, em que o existencial particular se torna inteligência universal.
Muitos anos combati contra Chopin, até algumas interpretações me mostrarem o espírito da sua obra: invenção no diálogo com o piano, o desafio de criar um mundo sonoro só seu contra todas as modas do mundo. O homem que não deve ter dado mais do que vinte concertos públicos em salões literários (como notava o excelente artigo de Cristina Fernandes no "Público" de hoje) foi longe e nunca foi esquecido porque era um explorador de sons para a alma. É como um investigador de profundidades que o ouço, muito para além da maré do tempo e da moda. É o homem que se ouve nas pequenas peças dos "Prelúdios" por Martha Argerich ou Jorge Bolet; na tempestuosíssima "Primeira Balada" por Arturo Benedetti Michelangeli; ou nos "Estudos" em que resumiu e se defrontou com o mundo, interpretados por Alfred Cortot, Samson François ou Nikolai Lugansky; ou nas Valsas tocadas com a felicidade da vida vista de quem sabe que pode morrer a qualquer segundo, pelo maior pianista de todos os tempos, Dinu Lipatti; ou nos Concertos para Piano e Orquestra, Martha Argerich no Primeiro, Zimerman no Segundo, ou em ambos na gravação recente de Boris Berezovsky.
Os Nocturnos são um caso à parte, tocados quase sempre como melodias para colorir cenários kitsch, quando o que se passa é o naufragar contra o mundo inteiro para conquistar a plena liberdade interior. Chopin aqui cria em altas temperaturas emotivas um laboratório para o sentimento se tornar escada para a luz interior. Ninguém como Claudio Arrau compreendeu isso.


Mas uma peça só, um disco só: o de Ivo Pogorelich (DG), onde, com a Sonata No. 2 ("Marcha Fúnebre") e alguns Estudos, se conta o Nocturno que mais me toca, onde bebi tudo isto noites fora, onde está em resumo em forma de murro tudo o que devo a Chopin.


Hoje, dia em que Chopin faz 200 anos, o maior tributo não é apenas ouvir a sua música: é perceber o que é que ela me pede, a mim que o oiço, em fazer novos mundos no mundo.


NB: A imagem é da Folle Journée, a mãe da "Festa da Música" que burocraticamente terminou em Portugal, e pode, com o seu Chopin trintão século XXI, fazer mais do que muita campanha intelectual.

Comentários

Clem disse…
Márcia Fúnebre.

(desta vez não pude deixar de comentar =)

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