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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2010

Uma casa para a alma

Tantas coisas que ficaram nas paredes da infância e do medo, tantas coisas penduradas que ocupam os pulmões, o lado de dentro da pele da vida. Impedem de andar. São buracos onde se pode ver o céu mas onde apenas o corpo desiste. Cair dentro de todas as coisas, mergulhar o coração até onde parecia ser o caos. E aí perceber que o avesso sou eu, que tudo que vai da extensão dos dias até ao limite do corpo sou eu, em processo de subida. Encontrar onde não se esperava uma casa para a alma.

O CONGRESSO DO PSD

Os Congressos do PSD são o Teatro Nacional.
Emoções ao rubro, personagens-tipo, "dramalhões cosidos às facadas" (como dizia Camilo), aldeias da roupa branca, Sebastianismos revistos e adulterados, tabus. Se Aristóteles fosse vivo, fazia um capítulo extra na Poética não sobre a Tragédia, mas sobre este género único e híbrido chamado "Congresso do PSD". Mas a verdade é que para além de enorme entretenimento - com excelentes oradores, sem dúvida - estes congressos discutem com encenação e paixões velhas questões, feridas novas e fundas - e limpam-se. E o que é espantoso é que há qualquer coisa de ambiente de ódio veneziano, misturado com uma catarse colectiva que acaba por ser democrática na raiz e no efeito, e ligar um partido desavindo. Um partido que se cose às facadas. Já não havia um assim há anos (por causa das eleições directas para o líder que esvaziavam os congressos). E eu, que tirando o Sol, tenho deixado de comprar jornais portugueses, quebrei um jejum quares…

UM NAMORO BEM PASSADO PARA TABUS QUEBRADOS

O texto que se segue nem a conto promete, é um contareu de brincadeira, escrito para comemorar o blogue conjunto de alunos amigos, http://www.otabufoiquebrado.blogspot.com/
Estará a chegar lá não tarda, e por isso não vale a pena lerem a seguir: leiam lá, tem sangue novo de cidades por fazer.

NAMORO BEM PASSADO À MODA DE MACHADO DE ASSIS

Deu-se o caso seguinte com um velho conhecido meu, homem quase da idade de Cristo, meditabundo mas feliz, que não dando para noveleta, bem servia a um folhetim – dessas que as velhas senhoras lêem ao conforto da lareira do Inverno, protegidas que estão já dos verões do corpo. Pois o caso, não sendo velho, continha uma daquelas aventuras no tempo que fazem as coisas perder a idade. Tinha-o encontrado frequentemente, a esse velho conhecido, de nome Feliciano, na Biblioteca Pública, sempre com aquel ar irrepreensível e perdido de explorador tropical de velharias. Mas notava a propensão de acabrunhadice no seu rosto – como se um fantasma fosse crescendo nele…

Lille

Era só uma noite, chegar de Bruxelas já tarde para as horas norte-europeias, o dia seguinte era mais cedo do que eu. Pus os sacos no quarto numa corrida. Tropecei na entrada, não encontrava o interruptor. Não precisei: a luz era uma torre branca. Diante dos meus olhos a pedra reflectia, emanava, e o torreão com os soldados com cara de gárgulas e enigmas parecia voltar-se para mim, imóvel na sua dinâmica.
Ao fundo, ao lado da torre (das torres) da Igreja de S. Maurice, uma outra torre, negra, me olhava. Uma luz circular incidia sobre mim, como se as duas torres, polarizadas entre o bem e o mal, tivessem um único olhar, uma única luz. Eu estava precisamente entre elas.
Não sei porquê, mas o significado de tudo isto era bem mais antigo do que eu.
Visitar uma cidade de passagem: para aprender que as passagens é que são cidades.

200 anos de Chopin

Podem dizer-me que mais importante são estradas, crescimento económico, ir a Marte: mas eu acredito que sem Fréderic Chopin (1810-1849) o mundo era inabitável. Não o mundo de todos os dias, mas o mundo interior. Este homem rasgou clareiras maiores do que uma ponte sobre o Volga, o Tejo, o Atlântico: este homem rasgou pontes para os rios da morte, para trazer novas vidas à vida.
A habitação interior das coisas: criar espaços de alma em que cada ser não está sozinho, em que cada ser se sente acompanhado em cada um dos seus mais complexos e solitários estados de espírito. Em que cada um dos mais impronunciáveis sentimentos tem um lugar em música. Em que cada ser pode compreender-se e chegar mais longe.



Não gosto da figura de Chopin que o romantismo construiu, muito devido a interpretações hiper-românticas da sua obra, e aos testemunhos da sua companheira de vida, George Sand, que o descreviam como um ser de uma sensibilidade quase doentia. Não é o Chopin cadavérico e doente, mas o homem i…