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o país funciona? Nº1 de milhares

Manuel Alegre anunciou a sua candidatura à Presidência da República. Sem meios mas nem caminhos intermédios. Sem apoios prévios conhecidos. Ficou-lhe bem, e à independência que se espera de um candidato presidencial, que deve vir sempre de algum lugar mas a partir daí perder as raízes para ser de todos.
Devo dizer que não sou suspeito nas minhas afirmações: com excepções que se contam pelos dedos de uma mão, não gosto da poesia de Alegre; e não gosto da figura autoral que emerge dos poemas. Mas reconheço uma certa hombridade e independência que sai da sua acção, que sempre achei ser uma certa incapacidade para negociar consigo mesmo entre fundas convicções e jeito para fazer o jogo dos media. Acho-o um homem sério e coerente, em muitos aspectos independente mas limitado por anos de senador sem lugar. Lentamente a figura surge e traz agarrada uma base profunda de esquerda que o liga ao republicanismo íntegro da primeira República. Aliás, é um pouco uma figura da Primeira República, mas que tem aprendido consigo mesmo e com o tempo a gerir os estilhaços do seu partido e da projecção mediática.
Fará o pleno da esquerda, coisa que Sampaio fez mas não sem tanto afastamento ou independência (e foi provavelmente o melhor Presidente pós-25 de Abril, por vários motivos que valiam outro post). Alegre vale por si e será sempre independente nos seus apoios.
É a figura que toda a esquerda, algum centro e até alguma da direita encontra com a sinceridade e os princípios que faltam ao tecnocrata Prof. Cavaco, emparedado entre os jogos do Governo e um perfil de competência técnica deste que é apenas jogo chic para as câmaras da comunicação social. E mais: estranhamente, saberemos que Alegre fará a vida muito mais difícil a qualquer governo, de esquerda ou de direita, não em desconfianças ou mini-crises, mas em estabelecer claramente princípios lógicos e comuns.
Este grito de independência, assumido por quatro anos bem geridos, vai custar a Presidência a Cavaco. Mas para mim é mais esperançoso ainda que isso: que pode emergir deste gesto uma nova classe política, independente e guiada por princípios, onde a independência e princípios coerentes possam gerir de uma vez por toda a actividade política. Acredito que mesmo numa impossível derrota, Alegre semeará muitas coisas consigo. E isso, tão raramente, diz-me que este país pode funcionar.

Comentários

Castor disse…
Nas peças de marionetas, existia sempre uma Moral no final.
Hoje os «guignols» sucederem-se na dança das cadeiras.
Até quando o lirismo da cantora careca?
Alegre pode ter muitos defeitos e virtudes. Mas, mais que isso, é a falta de memória de Portugal para os tecnocratas do presente que faz desta candidatura uma boa notícia. De resto, venha o que vier, quem faz o país somos nós.
Castor disse…
«De resto, venha o que vier, quem faz o país somos nós.»

É verdade, desde que a falta de memória, a tal, não seja contagiosa.

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