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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Concerto para Violoncelo e Orquestra de Dvorák
As coisas que amamos nunca se perdem. Ficam num lugar muito longe, mais longe que o tempo. Por vezes regressam, e podemos quase tocar-lhes o rosto, como um sonho que vem da maior verdade do coração, se suspende, e cai como a chuva da primavera na terra a renascer. Doem, como o corpo depois do naufrágio de alguém dentro do próprio maremoto da vida. Mas são claras, mais claras do que o amor visto nos olhos de quem amamos.
Assim esta música, que parece surgir de um deserto violento por tantas imagens, por tanta perda acumulada. O violoncelo parece rasgar-se não do que diz, mas do que guarda, de tantas coisas que traz agarradas à corda da voz, e explodirá se as disser. Não pode dizer as coisas que amou e são mais reais do que o seu próprio regresso.


Uma vez, na estrada dos vinte anos, aquilo que ficou por dizer-se, um olhar apenas com a nitidez em ferida do futuro. Isso é esta música, este adagio em paz mas que parece nunca mais regressar do seu sonho, barco levado à procura de si mesmo.


E que termina em luz, em quase festa, na certeza de que todos os encontros estão sempre por cumprir, e só acontecem quando a luz acaba e o princípio começa no fim.


Pablo Casals nos anos 30 (Naxos), severamente apaixonado; Pierre Fournier com o mesmo Szell que Casals, mas nos anos 50 (DG), torturado mas rigoroso. Ou esta gravação de Jacqueline du Pré com Celibidache (Teldec): basta pô-la a tocar, cancelar o mundo por meia hora, e saber que é em nós que o futuro tem de acontecer.


Comentários

Brunorix disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Brunorix disse…
Mestre: que bom que foi recordar o aveludado som do violencelo. Este seu discípulo das letras foi em tempos aprendiz de tão nobre instrumento...

...e Jacqueline du Pré?!... sempre que quiser acontecer mais algum futuro connosco poderemos sempre partilhá-la (a Jacqueline). Ou então, logo ali ao lado, Yoyoma (outro dos meus favoritos), com particular destaque para as suites de Bach (ou da Anna Magdalena, não sei).

Ou então, também nos podemos sentir assim... http://bilhetedeida.blogspot.com/2009/10/blog-post.html

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