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A CHUVA QUE CAI DO CORAÇÃO

Jardins para o fim dos tempos: Quarteto No. 15, op. 132, 3º andamento, "Heiliger Dankgesang"

O princípio é de Verlaine: «il pleut dans mon coeur comme il pleut dans la ville». Cito de cor, de coração, que é isso que a expressão quer dizer desde a aurora dos tempos. O princípio é de Verlaine, a realidade é minha, e tão pessoal que escrevê-la faz o som doer.
Wilhelm Furtwängler não levava cigarros dentro do sobretudo com que saía para passear por Berlim; mas só um pequeno livro com as partituras dos quartetos de Beethoven.
Esta semana, ao ouvir, e por uma vez compreender, o "Heiliger Dankgesang" (canto de acção de graças), sei de uma vez por todas, sei pensadamente no coração, sei com a certeza de que chove mais severamente dentro de mim mesmo do que alguma vez choverá sobre a terra: que aqui a música tocou o seu extremo. Que um sentimento humano vivido e depurado torna-se numa casa de silêncio, onde todos os seres humanos podem ficar, conhecer-se, mudar-se pelo interior inteiro.


[ainda estou demasiado apaixonado pela obra para recomendar versões, mas a do Quarteto Talich (Calliope) é uma construção de suavidades infinitas, e a do Quarteto Borodin um jogo de conflitos em pacificação. tensões mais crescentes, a do Quarteto Takács. Que cada um escolha as suas armas.]

Comentários

Gostei. Do princípio de Verlaine e do som a doer.

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