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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2010

o país funciona? Nº1 de milhares

Manuel Alegre anunciou a sua candidatura à Presidência da República. Sem meios mas nem caminhos intermédios. Sem apoios prévios conhecidos. Ficou-lhe bem, e à independência que se espera de um candidato presidencial, que deve vir sempre de algum lugar mas a partir daí perder as raízes para ser de todos. Devo dizer que não sou suspeito nas minhas afirmações: com excepções que se contam pelos dedos de uma mão, não gosto da poesia de Alegre; e não gosto da figura autoral que emerge dos poemas. Mas reconheço uma certa hombridade e independência que sai da sua acção, que sempre achei ser uma certa incapacidade para negociar consigo mesmo entre fundas convicções e jeito para fazer o jogo dos media. Acho-o um homem sério e coerente, em muitos aspectos independente mas limitado por anos de senador sem lugar. Lentamente a figura surge e traz agarrada uma base profunda de esquerda que o liga ao republicanismo íntegro da primeira República. Aliás, é um pouco uma figura da Primeira República, mas …

A CHUVA QUE CAI DO CORAÇÃO

Jardins para o fim dos tempos: Quarteto No. 15, op. 132, 3º andamento, "Heiliger Dankgesang"

O princípio é de Verlaine: «il pleut dans mon coeur comme il pleut dans la ville». Cito de cor, de coração, que é isso que a expressão quer dizer desde a aurora dos tempos. O princípio é de Verlaine, a realidade é minha, e tão pessoal que escrevê-la faz o som doer. Wilhelm Furtwängler não levava cigarros dentro do sobretudo com que saía para passear por Berlim; mas só um pequeno livro com as partituras dos quartetos de Beethoven. Esta semana, ao ouvir, e por uma vez compreender, o "Heiliger Dankgesang" (canto de acção de graças), sei de uma vez por todas, sei pensadamente no coração, sei com a certeza de que chove mais severamente dentro de mim mesmo do que alguma vez choverá sobre a terra: que aqui a música tocou o seu extremo. Que um sentimento humano vivido e depurado torna-se numa casa de silêncio, onde todos os seres humanos podem ficar, conhecer-se, mudar-se pelo interio…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Concerto para Violoncelo e Orquestra de Dvorák As coisas que amamos nunca se perdem. Ficam num lugar muito longe, mais longe que o tempo. Por vezes regressam, e podemos quase tocar-lhes o rosto, como um sonho que vem da maior verdade do coração, se suspende, e cai como a chuva da primavera na terra a renascer. Doem, como o corpo depois do naufrágio de alguém dentro do próprio maremoto da vida. Mas são claras, mais claras do que o amor visto nos olhos de quem amamos.
Assim esta música, que parece surgir de um deserto violento por tantas imagens, por tanta perda acumulada. O violoncelo parece rasgar-se não do que diz, mas do que guarda, de tantas coisas que traz agarradas à corda da voz, e explodirá se as disser. Não pode dizer as coisas que amou e são mais reais do que o seu próprio regresso.

Uma vez, na estrada dos vinte anos, aquilo que ficou por dizer-se, um olhar apenas com a nitidez em ferida do futuro. Isso é esta música, este adagio em paz mas que parece nunca mais regressar do seu…