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Mensagens

A mostrar mensagens de 2010

uma tradição pessoal

É uma tradição pessoal; soa-me a antigo, mas não me lembro de facto de quando vem. Todos os anos, neste último dia do ano, sento-me a fazer um balanço escrito do ano, sobretudo nas coisas difíceis (e seu significado) e nas coisas boas, que significaram mudança. E faço isto ao som dos discos que mais ouvi ao longo do ano: a banda sonora do ano ajuda e celebra tudo isto.
Este ano, o que ouvi e se gravou em mim:

- Mozart: Requiem
Coro e Orquestra da Rádio da União Soviética, Nikolai Golovanov (1951)
Archipel
Comprei-o em Berlim na loja mais próxima do paraíso: a Dussman, com a maior colecção de música clássica que vi no mundo, durante a minha viagem Berlim-Istambul.
Música religiosa pela orquestra da URSS: mas sem a respiração beata de algumas versões, o que de facto vibra aqui é a violência final desta música; a gravação de 1951 e o facto dos intérpretes terem mortes na voz (da guerra que há seis anos atrás acabara) dá-lhe uma ressonância maior. O coro é assustador, os baixos e os tímbales ap…

Febre

Terceira vez depois dos 33.
Isto começa a parecer-me mal. Sempre ouvi dizer que os 30 se sentiam, mas os meus adoecem, suam, gargantam e enfebrecem.
Pergunto-me se haverá uma espécie de complexo de calvário nos 30. Tem que se passar, como o Cristo. Pode ser um objectivo para estes dias de cama, em que conheço o tecto da minha casa de cor, os ruídos dos vizinhos e da rua, a ordem dos livros na prateleira. Ler, nem dá: os olhos estão inchados e as letras dançam. E eu que feliz quando o médico disse "três dias de molho" fui buscar o carrinho do supermercado com as dezenas de livros que não pude ainda ler.

Mas o pior é quando a febre vem. Só tinha lembranças disto da minha infância, quando o quarto parecia andar à volta, se sentiam as aragens todas, e o coração batia depressa ao ritmo do frio. O corpo parece tomar posse do corpo. Da batalha que se passa cá dentro eu sou apenas o campo. Não posso fazer nada. Não conheço o rosto das bactérias e dos glóbulos brancos que vão morrendo a…

Recuperar

A Greve geral de 24 de Novembro em Portugal foi um sucesso.
E este sucesso é maior porque acredito que todas as pessoas que trabalham tomaram uma decisão difícil: para já, de verem cortada dos seus ordenados uma parte do seu rendimento; e depois, de perceberem que era um sinal difícil de dar, pela indiferença do Governo e da Europa, e pela crise, não só nacional, em que cada gesto de revolta bate num muro de silêncio maior: «é mundial, pouco posso fazer, pouco vale o meu gesto».
A Europa tem de perceber, com esta greve e as restantes, que o Estado Providência que gerou no pós-guerra não é um sonho que acabou. Terá de ser reformulado, mas não pode ser morto. Este Estado Providência gerou uma das maiores épocas de prosperidade económica e cultural da história da Europa, já sem falar na paz e na unidade.
Cada um vale na Europa, não somos uma massa amorfa, somos um conjunto de democracias. Cada um vale, no voto e na acção. A greve relembra isso a cada instante. E se a crise que temos é devid…

uma barreira até ao som

Quando era tudo antes: quando não havia espaço entre mim e esta música, quando eu podia tocar-lhe, e ela podia absorver-me, afundar-me, desaparecer-me. Quando ela ocupava todo o meu espaço, físico e interior, e ribombava respirando dentro dos meus pulmões, revivificando as minhas articulações, bombeando o coração do coração.
Agora entre mim e ela há um espaço: oiço-a, mas não me invade. Ponho o som mas alto, mas não é dos ouvidos a falta, mas de habitação interior. Como eu queria ser desta música de novo.
O que toma este espaço dentro de mim? Que tipo de cera, de surdez, de monstro obstáculo na alma?
O meu reino por ouvir a 3ª de Brahms por Furtwängler pela primeira vez; por ouvir de novo, originalmente, como se acabada de compor para mim, a Sinfonia Patética, o 2º Concerto para Piano de Brahms, todas as Sinfonias de Mahler, a 4ª, a 5ª, a 7ª de Bruckner - e claro, o Beethoven inteiro. Voltar às tardes grandes de Verão da adolescência, com Mozart por todos os lados e os olhos a rebentarem…

No lançamento do manual de Autobiografia

Bendito Rotativismo

Parece que a zanga de Passos Coelho tem fim previsto: já há reunião de "coronéis" (sem a coragem dos outros) mandatados para discutirem poupanças de 10 a 20 euros no orçamento de cada português. Tudo vai acabar com pomposas declarações, facies alterados e resoluções de grandes compromissos.
Tudo isto é vergonhoso, dos dois lados: o PS gasta, sem nenhuma cara. Qualquer historiador daqui a 20, 30 anos, coleccionará as declarações de Sócrates no último ano como a evolução de uma piada trágica - da retoma, à evolução, ao caos. Agora temos um orçamento que nos "abriga". Num ponto tem razão: somos todos pedintes à procura de uma caridade que já não há em lado nenhum. No lado do PSD, porque rigorosamente não há ideias, não há projecto: só "deixá-los cair", para depois apanhar "isto" no pior estado possível.
Tudo isto é vergonhoso, dos dois lados, porque esquecem sempre o terceiro excluído: o povo - nós.

100 anos de República, I

Há cem anos começou a República.
O que se celebra hoje?, muitos perguntam. O fim da Monarquia, o início de um novo regime? A Monarquia há muito que tinha acabado como regime, e restava-lhe reinventar-se (o que manifestamente não podia, com uma opinião pública maioritariamente republicana) ou terminar. A ditadura de João Franco tinha sido o último tiro de pólvora seca num regime moribundo. Não havia espaço para mudanças.
Hoje, também não há espaço para mudanças. Há uma coisa que se chama União Europeia, o nosso porquinho-mealheiro, o nosso porquinho da Índia, o nosso único mar de pedra, quando o mar real há já tempo se fechou. Voltámos à tomada de Ceuta, em pleno início do século XV, quando era facto provado que este país não se aguentava com os recursos que tinha, e precisava de ir buscar fora o que não tinha dentro.
Hoje, também estamos no mesmo estado de fim de regime: uma figura presidencial que não serve para nada, um corta-fitas paternalista com espaço para discursos. Cavaco fez-se …

Londres, dia 3: meditação em euston road

Eu conheço estas ruas mas elas não me conhecem. O homem que andou por aqui anos antes tinha um pacto com o sonho; uma ligação, irreal, romântica, adultamente infantil. Esta outra pessoa de hoje não é a anterior. Nasceu das feridas dessa outra.
Foi só em viagem, numa outra, que compreendi que sou permanentemente o meu nascimento. Que o que faço aqui é nascer, cada vez mais em luz. Mas como o Universo, só se nasce das próprias feridas.

Chove, chove sempre entre Marchmont Street e Euston Road. Pergunto a este chão se se lembra dos meus passos. Responde-me com milhares de seres, com vidas que não se cumpriram e outras que sonharam outros espaços, outros lugares, outras vidas. Era «um rumor de outras vidas, uma esperança de vitrais», como dizia Natércia. Esta espécie de consciência que tenho parece então alargar-se, como se uma outra pessoa que fez aquele caminho, e eu de ontem e eu de hoje nos ligássemos numa comunicação mais larga. Quem foi essa outra pessoa que me liga a mim de antes e a …

Londres, dia 2: Slyde Park

Na verdade, jantar do dia 1.
Ele é brasileiro, fala um inglês sambado, malandro. Quando o Paulo e eu nos sentámos na mesa ao lado para jantar, o brasileiro estendia o seu inglês sobre as suas fazendas, de como as mulheres brasileiras se tatuam em todo o lado depois dos cinquenta, como tudo lá é bom e um universo de possibilidades. Ela, que o acompanhava, era bonita. O inglês perfeito, a atitude receptiva, mas apesar da pele branca, o cabelo era uma raridade aqui, um negro escorrido. Sobretudo um corpo perfeito e um sorriso inteligente. Embasbacada pelo cabelo malandro dele, o brasileiro típico do "Breakfast at Tiffany's", moreno tisnado-menino rico - a forma ideal de provar da melhor confecção do calor brasileiro. Mas ele falava sem parar da vida maravilhosa lá, de como fazia tudo e mais alguma coisa, do carro raro do pai que ele passeava pelos matos a horas estranhas, tão corajoso como um bandeirante. Meia hora nisto. As mãos dela aproximavam-se perigosamente das mãos d…

Londres, dia 1: ver através de uma sinfonia

De volta a Londres, sete anos depois.
Nunca gostei da sinfonia de Haydn, a última, a 104, que se chama precisamente "Londres": achava o início pomposo, mas sem o barroco triunfante de Haendel uns anos antes. Desta vez - porque depois dos 30 os regressos aprofundam-se no corpo - compreendi-a. Compreendi o movimento da música no seu início, e o tema suave e narrativo que vinha depois: porque compreendi a maneira como o rio abre ruas entre o sono das cores.

Regressar a uma cidade que não se amou - porque nela o amor por outro ser, se teve e se perdeu -, é um exercício onde as vísceras parecem tomar o lugar dos olhos. Mas nada parecia estar no seu lugar. Já o tinha vivido, e agora bebi-o com uma certeza fria, suavemente mental: vivemos as cidades com o coração dos olhos; ao regressar, o que está como centro da vida nesse momento, é isso que é o mapa da cidade, a forma como somos guiados pelas ruas, pelas cores e pela substância das coisas. Uma cidade é vivida pelo hoje do coração.…

Novidades do Crime Branco

Vinha há dias num dos melhores jornais do mundo, o "Guardian": o Vaticano considerou, em termos de crime muito grave, numa recentíssima revisão do Código de Direito Canónico, a ordenação de mulheres.
Se isto não bastasse já para suscitar terror e piedade, na melhor tradição aristotélica (terror pela ideia, piedade pela tacanhez de espírito), o outro crime mais grave, comparável à ordenação de mulheres, é... a pedofilia.
É tão inacreditável que não merece comentário. Mas é preciso dizer que o desrespeito profundo da Igreja Católica pelas crianças abusadas, e pelas mulheres, atingiu níveis medievais.

A Crise, I

E aí está: maremoto, fantasma, leão, bárbara: à porta. Ruge e vibra, como um medo concretizado, mil rostos contra todas as formas das ilusões.
O que nos custará a sua chegada? Alguns dizem: o estado criará bancos próprios, é um regresso à economia estatizada, um neo-soft-comunismo de salvações nacionais. Outros, o fim do euro. Outros, o regresso da troca directa que a Europa não conhece há muitos mil anos. Outros, só, o fim de cem anos de ilusões de um desenvolvimento suspenso em dinheiro que não existe, dinheiro estruturado em valores atmosféricos, desde que perdemos a ligação ao dinheiro real, desde que o valor do dinheiro deixou de estar indexado ao ouro (lembram-se decerto da inscrição nas notas de escudos "X escudos Ouro"?).
Maremoto, fantasma, leão, bárbara: cada tempo precisa dos seus fantasmas. Não apenas cada tempo: cada decadência. Para alguns Bizâncio foi apenas isso, um exemplo de uma decadência resistente durante mil anos: rodeada de fantasmas, maremotos, bárbaros…

Duetos Palavrosos, I

Johann Sebastian Bach: Concertos Brandenburgueses

Meu pai tinha disco antigo com essa música, tinha na capa um quadro antigo com flores. Depois eu ouvia ele ouvir essa música, enquanto eu brincava no jardim. Para mim os Concertos de Brandenburgo cheiram a flores. A árvores imensas. A sol estendido como gato no jardim.
Eu prefiro o Concerto primeiro, me parece uma festa onde só eu fui convidado. É música só para mim, nem imagino ouvir com alguém. Tive namoradinha de violino eu era adolescente, ela ensaiou essa peça para tocar com colegas, eu nem quis ouvir ela. Acho ainda hoje que a gente separou por isso.
Sentimentos da alma, essas coisas antigas que são explosões de perfumes, no Concerto No. 6. Ou um jogo de xadrês, que é o Concerto No. 5

Meu pai ouvia o disco de Nikolaus Harnoncourt. Ele veio uma vez tocar perto de nossa casa, com o seu Concentus Musicus Wien. Me pareceu que os gestos dele seguravam a música. Depois também gosto de Jordi Savall. Mas mesmo mesmo eu ouvo muito Pablo Casal…

Duetos Palavrosos, I

J. S. Bach, Concertos Brandenburgueses


O Dário Sopleen e eu gostamos de música, mas segundo alguns amigos comuns e leitores, nos quais me conto, ele é menos chato a escrever do que eu. Então combinámos falar de música, eu como de costume (talvez um poco piu presto), ele à sua maneira. Concordámos os dois que falaríamos dos Concertos Brandeburgueses de Bach.

Comecei a ouvir música nos Concertos para Violino de Bach. Mas o primeiro CD que o meu pai me ofereceu foram os Concertos Brandenburgueses Números 1 a 3 (são 6 no total), da velhinha colecção "Papillon" da RCA, com Franz Bruggen na flauta, Gustav Leonhardt na direcção. A sensação de um mundo novo era demasiada: a minha cabeça explodia com tantos sons: eu queria parar o CD sempre, ouvir cada pormenor, calar os outros instrumentos para ouvir o que uma flauta voava, o cravo subia, um violoncelo mordia. Depois passaram anos, e passei-os mais em Beethoven e Brahms do que outra coisa qualquer. Paguei as contas de ser chato aos 20…
A Companhia do Eu, escola de escrita criativa que fundei há cinco anos, está a comemorá-los. Como ontem, num jantar de gala, em que se juntaram 55 amigos (apesar da mania das capicuas, não foi de propósito...). Aqui segue um excerto do discurso final, agradecendo a todos tantos anos de apoio, confiança e amizade.

Nunca pensei que a Companhia fizesse cinco anos, porque – devo confidenciar hoje – nunca aprendi a esperar que o melhor dos seres humanos se encontrasse facilmente. A Humanidade era sempre uma ideia utópica, acessível na Literatura e nas Artes, na família e nos amigos íntimos, ou nas viagens mágicas do Pedro Barros e por sítios desconhecidos. Pensei sempre que o mal que os humanos fazem uns aos outros terminasse este projecto – isso e as dificuldades de gestão. Enganei-me redondamente. Como em qualquer projecto humano, o pouco, se entregue totalmente, multiplica-se e chega para muitos. O que importa é a partilha absoluta. E esse hábito fez-se regra: dos textos aos grupos, da e…

Brussels Blues

O que significa uma cidade a que se regressa? O que sou eu para a cidade enorme a que volto, quem é este corpo encruzilhada de passados e de futuros para a energia de uma cidade? Penso que nunca sei o que significa a presença de um ser numa cidade enorme, o seu peso de absoluto nas contas de significado das trocas de presenças. Uma cidade é rica de almas, de expectativas, das potências afectivas com que cada um faz alargar ruas, monumentos, capitais de alma.

E depois penso como esta cidade ficará gravada na memória do meu sobrinho Rodrigo. O que se lembrará ele de Bruxelas daqui a uns anos? Que cruzamentos de luz, de frases, de fachadas e de sombras vão sobreviver na sua memória, vão causar de encontros futuros?

Penso de novo que nunca saberemos verdadeiramente o que é uma cidade. Na verdade, porque é que elas existem, com o seu corpo de passado poderoso de significado, e se prolongam no tempo e no espaço da terra, e no tempo e no espaço do coração. Que milhares de almas não humanas …

O nascimento de um novo artista

Bruxelas, tarde de Junho. O meu sobrinho Rodrigo está pela primeira vez numa grande cidade fora de Lisboa, a primeira grande cidade dele aos dez anos de vida. «Em que é que reparas de diferente?», ele parece distraído, entre as copas demasiado verdes das árvores e as casas de tijolos. Ainda está com a cabeça no Museu Magritte. O Rodrigo - nome de guerra Rô - desenha muito bem desde muito pequeno (ajuda e influência do pai dele, que para desenhar os Sena-Lino nunca tiveram jeito). A minha irmã Papi, que veio connosco, teve a ideia excelente de lhe darmos um caderno de viagem para ele registar; eu, ainda com saudades da minha viagem anterior, tinha-me só lembrado de lhe dar uma pequena máquina para ele ver a cidade pelos olhos dele.
Mas o caderno no Museu Magritte foi demasiado útil. Pegou numa "bic" e sentou-se à frente dos quadros que o marcaram mais. E desenhou, desenhou, desenhou: reproduzia as figuras detalhadamente, como as via nos quadros, mas depois dava-lhe qualquer co…

O "guião" desgovernado

Na manchete do "DN" de ontem, uma notícia inacreditável: "Guião da Igreja 'abençoa' Bagão ou Santana" (pode ler-se aqui).
Parece que um guião 'abençoado' pela hierarquia tenta que um candidato de direita concorra contra Cavaco Silva nas Presidenciais, sobretudo contra a sua decisão de promulgar o casamento gay. Tem sido objecto de homilias nas missas, inclusivamente. Este 'guião', secreto como é marca da Igreja em tempo Ratzinger, é um verdadeiro escândalo. Chega-se a referir, segundo a notícia, que nos "tempos de crise que vivemos" a posição de Cavaco deveria ser outra.
Como católico, em choque pergunto: e um guião para os católicos agirem no tempo de crise económica em que nos encontramos? E a Conferência Episcopal, e cada bispo, e cada padre de cada paróquia a moverem-se para encontrarem soluções, dentro das suas comunidades, para que um espírito verdadeiramente evangélico se mova para que se auxiliem as famílias em risco de desem…

a autobiografia do futuro eu #1

«I'm not ready to love» (Rufus Wainwright)

Não há nome para o espaço que fica entre a noite e a madrugada: mas ele existe, és tu. São as primeiras luzes do sol, ainda sem alba, quando já não é noite cerrada, mas tu existes a cada instante, como uma promessa.
Durante tanto tempo tentei impedir esta parte da noite de existir. Agora tenho perfeita consciência dela, perfeita forma. É por isso que não deixo que os raios de sol entrem pela janela: espero o preciso momento em que a noite acaba e o sol surja ainda como uma promessa, talvez impossível: e fecho-a.
Não estou preparado para amar. E estou. Esta música nega-o, aceitando-o, tal como o sol que cada manhã diz que perdi o caminho para o meu próprio coração. E desenha o seu caminho de volta, todos os dias. Até que eu perceba que eu estou, que tu estás, e o destino da noite é acabar com o sol.

Uma ideia para o 10 de Junho

Anda para aí uma agitação curiosa sobre os feriados. E que tem toda a razão, mas que esconde uma discussão mais séria e maior. A maioria dos feriados que temos têm a ver com a nossa tradição religiosa, de um catolicismo abraçado pelo estado e tão ardentemente vigiado. É natural, por isso, que tenhamos mais feriados que os franceses, alemães e ingleses, que andaram séculos divididos religiosamente, e que não os poderiam ter.
Como religioso, acho a maioria dos feriados religiosos absolutamente banível: como feriados - apenas. Acho inclusivamente que quem é um católico praticante o deveria registar junto do estado, como se faz na Alemanha, para que parte dos valores do seu IRS seja entregue à sua Igreja. Com isto, os católicos registados poderiam gozar de tolerância de ponto (e apenas isso) para as festas religiosas. Claro que alguns deles, como o dia de Natal, a Sexta-feira Santa, o Corpo de Deus (que tem ressonância forte ainda em algumas zonas do país) se poderiam deixar; ou os santo…

Na morte do «avestruz lírico»

Ontem morreu o poeta António Manuel Couto Viana. Conheci-o relativamente bem, e melhor de certa forma indirecta. Era amigo da minha avó Natércia, se bem que ela vivia em distância em relação a tudo o que tinha a ver com amizades literárias - mas isso seria objecto para todo um livro. Mas conheci sobretudo o Couto Viana dos anos pós-25 de Abril, que produzia infatigavelmente livros de poesia de pendor nacionalista. Contou-me com gosto, que uma vez lhe bateram um dia à porta de casa recitando-lhe o seu poema «Portugal», uma quadra que reflectia uma certa visão do país, acabando (e cito de memória): «Fizeram-no assim para caber numa mão, fechada!».

Mais tarde, nas "Tardes Poéticas" que organizei na FCSH em conjunto com Diogo Bento, Cláudia Chéu e tantos outros (o "Grupesco"), orientados por Clara Rocha, nos anos 1997-2000, dedicámos-lhe uma sessão. Nós líamos toda a obra, seleccionávamos, um crítico ou professor apresentava previamente em 15 minutos. Alguns poetas viv…